São Paulo - Mais de 40 mil pessoas alimentam um ódio declarado contra gente folgada no cinema. Outras 8.216 não suportam o braço das poltronas. Contra cabeções nas salas de projeção, há uma comunidade - ''Eu Odeio Cabeçudos no Cinema'' - com 2.646 pessoas. O Orkut (veja quadro abaixo) é apenas um sinal dos tempos e um indício do que leva mais pessoas a fazerem seu cineminha no escurinho da própria sala - tenha ela home theater ou não. Se Maomé não vai ao cinema, o cinema pode ir a Maomé.
Mesmo quando o orçamento não permite comprar a TV de plasma tamanho gigante e de tecnologia da mais recente, os adeptos do ''cinema no sofá'' preferem as almofadas quando pensam no pacote que os aguardam fora do próprio ninho. Pegar um cineminha nas grandes cidades, para elas, é o último estágio de uma escalada que começa com ''pegar um lugarzinho na rua para estacionar o carro'', ''pegar uma fila para comprar ingresso'', ''pegar uma cadeirinha na sala que não seja atrás de um boneco de Olinda'' e dar a sorte de ''pegar um filminho com uma turma que conheça os princípios básicos das relações humanas''.
''Eu me mudei de Santiago do Chile para São Paulo há dois anos e praticamente deixei de ir ao cinema. As conversas dos outros me incomodam duplamente, porque atrapalham o filme e são em português, uma língua que eu não entendo completamente'', diz o contador Andrés Delgado, que espera os filmes saírem em DVD para assistir com a mulher, Mariela, e o filho pequeno, Bástian.
A fala de muitos pode beirar a ranzinzice. ''A gota d'água para mim foi ver pessoas com celulares tirando fotos dentro do cinema. Um só celular já atrapalha tudo, imagina vários'', diz a auxiliar de coordenação Luiza Aquino, que acha mais cômodo e barato ver filmes em casa. ''O que me fez desistir do cinema também foram os casais dentro das salas que não param de se beijar e de discutir a relação. Perco a paciência com as criancinhas também'', completa Luiza.
Há quem ache insubstituível a sensação de ir ao cinema, mas ainda assim prefira não mais se aborrecer com os outros fora de casa. O apresentador Otávio Mesquita montou uma sala para seis pessoas em sua casa (leia mais nesta página). Já a estudante Thatianne Ponce não precisou ir tão longe. Faz as sessões em sua sala de TV mesmo. ''Deixo para ir ao cinema quando percebo que a sensação de um filme seria muito diferente em casa'', diz.
''Durante a sessão de 'Eu Sou a Lenda', uma garota comia pipoca com a boca aberta. Quando terminou o saquinho, torceu até deixá-lo no formato do porta-latas da poltrona. Foi um barulhão. Isso sem falar de uma outra que atendeu ao celular e disse 'estou no cinema, mas pode falar', e isso em voz bem alta'', revolta-se Thatianne.
''É uma epidemia. As pessoas acham que estão na sala de casa, e não em um cinema convencional'', diz ela, que chama os amigos, faz um balde de pipocas e assiste a dois, três filmes no fim de semana. E ela jura que, mesmo em casa, não deixa ninguém conversar durante a sessão.
Táticas contra folgados
O bancário Marcos Santiago ainda prefere ir ao cinema por causa do ritual de comprar pipoca, entregar o ingresso e ver tudo numa tela grande, mas confessa que está pesquisando preços de home theaters e TVs de plasma para ter suas sessões particulares. ''Três vezes por mês fazemos um 'cinema em casa', com queijos e vinhos'', conta ele. ''Os celulares estão transformando as sessões em concertos de rock'', brinca.
A jornalista Claudia Skobelkin criou táticas para driblar os folgados. Uma delas é fugir dos horários nos quais há excesso de adolescentes nas salas, optando pelas últimas sessões do dia. ''Também não vou mais a redes grandes de cinema porque são cheias de gente mal educada'', conta ela, que não vê muito conforto no home theater e ainda não resiste a uma sala convencional. ''Mas só de pensar em ouvir a conversa dos outros, desanima.''
Outra adepta a horários alternativos é a estudante Dani Cury, que tem em sua casa uma televisor de 50 polegadas e um home theater. ''Você acredita que, certa vez, já ouvi gente roncar em plena sessão numa sala de cinema? Me responda, por que a pessoa paga para dormir no cinema?'' O jeito, para ela, é ficar em casa com o balde de pipoca nas mãos.

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