Nos plantões do Hospital Universitário (HU) de Londrina, o médico Carlos Roberto Pires Junior, 25 anos, nascido em Paranavaí, só via casos de rabdomiólise quando atendia vítimas de atropelamento. Agora, atuando como aspirante a tenente do Exército no meio da selva, ele conhece outro tipo de vítimas do mal que ''arrebenta'' as células musculares: os alunos do Curso de Operações na Selva (COS).

O esforço físico em excesso causa o rompimento das células que existem nos músculos, jogando para a circulação sanguínea tudo que existe no interior dessas células. O problema é que os rins humanos não estão preparados para filtrar tais substâncias e podem até parar de funcionar.

Pode acontecer também de o músculo afetado com o rompimento de células ser o coração, causando necrose. ''É como se fosse uma infecção generalizada'', explica Pires Junior. Não é à toa que a doença causa temor no Cigs, que investe para tentar evitar problemas mais graves.

O corpo médico acompanha cada passo dos alunos. Inspeções são feitas constantemente. Uma ambulância equipada com recursos de UTI está sempre o mais perto possível de cada instrução. À mínima suspeita de rabdomiólise, o aluno é encaminhado para o Hospital Geral Militar de Manaus onde passa por exames de sangue para o diagnóstico da doença

Mesmo assim, a rabdomiólise faz o papel de inimigo difícil. Os dois oficiais afastados do curso durante a instrução de resgate de feridos tiveram o diagnóstico da doença confirmado e foram desligados do treinamento.

Voltar para o 8º Batalhão de Infantaria de Selva de Tabatinga (AM) sem o brevê da onça deixa chateados o tenente Lúcio Mariano Gonçalves, 26, e o aspirante a tenente Thiago Silva Diamantino, 24. ''Se pudesse voltar atrás, não teria deixado o médico me tirar de lá'', lamenta Diamantino.

''Já tentei em 2006 e tive o mesmo problema. É uma frustração muito grande, pois me preparei durante um ano. Desde que a gente entra na academia militar, queremos o guerra na selva. Mas vou tentar novamente'', completa Mariano.

Da UEL para a mata
Trocar Londrina pela selva Amazônica foi uma opção do médico Carlos Roberto Pires Junior. Já aprovado para uma residência em anestesiologia pela UEL, ele adiou os estudos para 2009 e resolveu aceitar o convite do Exército - que contrata como temporários os formados em medicina - para fazer coisas que sempre quis.

''Sempre tive vontade de conhecer a vida militar. A experiência está sendo muito interessante. Sempre pensei em fazer rapel, andar de helicópetro, percorrer trilhas. Também está sendo bom ver que as coisas aqui no norte do País não estão largadas como eu imaginava. O Exército está fazendo muito bem o possível'', comenta. Em 2009, ele volta para os corredores do HU para cursar a residência em anestesiologia. ''De alma renovada'', garante.

Paranaense no comando
Nascido em Pato Branco (sudoeste) e criado em Apucarana, o capitão Edmar Cordeiro, 36, é o responsável por todos os estágios e visitas que acontecem no Cigs: mais de 30 só nos primeiros seis meses de 2008. ''Sou um pé vermelho que vim parar na Amazônia'', comenta.

No Exército desde 1991, Cordeiro conta que estudava firme - inclusive fazendo cursinho em Londrina - para ser veterinário quando decidiu ser militar por influência de um amigo que passou no exame da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (Espcex). Não se arrepende. ''No dia que prestei a prova para também entrar na Espcex vi que era o que eu queria mesmo para a minha vida'', relata.

De mudança marcada para voltar ao Paraná, onde comandará a 5 Companhia de Polícia do Exército, em Curitiba, ele se emociona ao dizer que não titubearia em retornar para a Amazônia no caso de um conflito. ''Já avisei a minha mãe e a minha esposa sobre isso: vou para a linha de frente'', conclui.

mockup