Em ''Risíveis Amores'', Kundera escreve algo mais ou menos assim, sobre uma de suas personagens: para esta, no amor, o flerte é o mais importante que o fato consumado. A personagem faz da ''... abordagem um exercício de virtuosismo considerado como um fim em si e, muitas vezes, não ir mais adiante. É por isso que ele se compara, não sem certa amargura, ao generoso atacante que dá bons passes para um companheiro de equipe, fazendo-o assim marcar gols fáceis e colher glórias sem grande esforço'', escreve. O que o escritor quer dizer é que muitas vezes o jogo da consquista vale mais que a finalização.
Menos literária, mas com o mesmo fio de pensamento de Kundera, há a piada entre os ''pegadores'' de plantão de que no amor, o que vale é pontuar - somar três pontos ao final. A vitória, no caso, não é baseada no número de gols, e sim na quantidade de conquistas, beijos e, quem sabe, algo a mais.
Por fim, há quem defenda que no futebol, o drible (ou um passe bem dado) é mais bonito que o gol. Se o gol é o amor consumado, o drible que deixa o zagueiro tonto é o flerte. Dessa forma, o balé sem classe de ataque e defesa do futebol pode ser comparado - até a náusea e o lugar-comum - com a dança da azaração entre homem e mulher.
O futebol, assim como a conquista, é o terreno da imprevisibilidade. Enquanto os jogadores de Coritiba e Atlético Paranaense duelavam no último domingo no Estádio Couto Pereira, em partida válida pelo Campeonato Brasileiro, homens e mulheres dividiam suas atenções entre o jogo e uns aos outros. Entre um lance e outro no campo, o flerte é o drible que acontece na arquibancada. Quase imperceptível, no meio da multidão que grita apaixonada, futuros casais vão surgindo. Casais efêmeros, é verdade, mas, ainda assim, casais.
Com mais mulheres frequentando estádios de futebol, a azaração que antes era restrita à festas e baladas, ganhou um novo terreno. Em um estádio, a geral é o campo onde o duelo da conquista acontece. ''Na geral rola muita paquera, pegação. Hoje estou casado, mas já peguei muita mulher aqui'', confidencia o torcedor Éder Sussolin, de 27 anos. A democracia da geral prevalece o surgimento da parquera. ''Na geral todo mundo é igual. Aqui você não precisa de carro ou roupa de marca para pegar mulher. Agora, em outro setores, como as cadeiras, a social, ninguém pega ninguém'', diz.
Com a experiência que diz ter, Sussolin afirma que dentro do estádio é até mais fácil para paquerar do que fora. ''O bom é que aqui você marca para ficar com ela depois'', conta ele e completa, enfático: ''Aqui no estádio, a mulherada vem para pegar. Pode ser feia, bonita, magra, gorda. Todas vêm para pegar''.
Em outro ponto do Couto Pereira, Marcel Oliveira despista, com um grossa aliança no dedo: ''Nunca peguei ninguém, mas tem muita mulher bonita no estádio''. Na visão dele, mulher vai ao futebol para ''interagir''. Completa o vago verbo explicando que enquanto umas querem realmente ver o jogo, outras ''querem caçar''.
Quando escuta a palavra ''caçar'', a torcedora Bruna Lucinda entra na conversa. ''Mulher não vem para caçar, não. Vem para ver o jogo. Quem fala isso é machista!'', dispara a tocedora, visivelmente enraivecida com a declaração. ''Não tem nada a ver falarem isso. Hoje, o futebol é coisa de família'', diz. Marcel contorna a declaração negando o que havia deixado no ar e tenta engatar um papo com Bruna. Ah, esses homens...
Maiores envolvidas no assunto, mulheres têm visões diferenciadas sobre o tema. A recepcionista Joyce Veiga, de 19 anos, observa, mesmo com o namorado a tira cola, que em um estádio de futebol existe ''bastante homem ''. Para ela, mulher vai ao estádio com três finalidades: ou para acompanhar marido e namorado (o caso dela), ou para assistir o jogo, ou para ver homem. Já seu namorado, o assistente administrativo Rodrigo Dei-Tos, de 23 anos, acha que o maior atrativo para elas é o futebol. ''Mulher não vem para paquerar, não, vem para ver o time'', podera. ''Se eu estivesse solteira, continuaria a vir'', diz Joyce, que passou a frequentar estádio com o início do namoro. Ah, essas mulheres...
Já para a balconista Franciele Cruz, de 27 anos, o estádio é o local para incentivar seu time do coração. Quando afirmam que mulher vai ao futebol apenas para paquerar, ela diz não estar nem aí. ''Acho que a declaração não é machista. Quem vem para ver o jogo mesmo, não liga para isso'', diz ela, mais calma na guerra (ou na paz) dos sexos e da bola. Em processo inverso a maioria, foi Franciele quem trouxe o marido para o jogo.

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