''Meus pais me colocaram a educação católica como opção. O estudo da língua japonesa, no entanto, era uma obrigação''. Com esta afirmação, a jornalista Adriana Yumi Ito, 26 anos, expõe parte do esforço dos nisseys em preservar a cultura trazida do Japão pelos pais, por meio da língua, das artes e da comida.
A londrinense, que passou todo o ano de 2003 estudando no Japão, também serve como exemplo do que a professora Estela Fuzii tenta explicar com o movimento dekassegui: a recuperação, ainda que tímida, da tradição da língua japonesa por fatores estritamente econômicos.
Adriana não é exatamente uma dekassegui já que não foi ao Japão para trabalhar. ''Havia viajado para lá em outras duas oportunidades, durante as minhas férias da faculdade, para trabalhar em um emprego temporário. Mas morar, mesmo, foi em 2003, quando ganhei uma bolsa de estudos'', conta. A viagem, apoiada pelo governo da Província de Yamagata, foi o que a incentivou a tentar recuperar parte dos valores da origem à qual está ligada.
''Não sei até que ponto o movimento dekassegui pode ajudar na recuperação da língua no Brasil. No Japão, os dekasseguis brasileiros encontram nichos onde, muitas vezes, só falam português. Por isso muitas pessoas passam um ano lá e mal apreendem a se comunicar em japonês'', conta. ''Neste aspecto, dei sorte, porque quando viajei pela primeira vez, trabalhava ao lado de uma japonesa. Então tinha que me esforçar para lembrar do que havia estudado quando era criança'', diz.
Depois da viagem de estudos, o que era visto como obrigação por Adriana passou a ser encarado como um prazer. ''Eu odiava estudar japonês, era muito difícil e achava que não iria usar nunca. No entanto, quando estive no Japão, senti vontade de ''vender'' a cultura brasileira por lá. Fiz o mesmo quando voltei'', explica.
As relações da língua japonesa com outras culturas ocorrem hoje de forma muito peculiar. Muitas palavras que até então não existiam no vocabulário nipônico foram incorporadas, com base em derivações de outras línguas. Um exemplo claro é a denominação utilizada para ''mesa''.
Como era um objeto inexistente até o início do século XX, a ''mesa'' nunca precisou ser nomeada. A chegada do utensílio ao Japão obrigou o povo a adotar uma denominação adaptada do inglês (table), algo parecido com ''têburo''. É bem provável que, neste processo, até palavras de origem portuguesa tenham sido incorporadas. Acredita-se que ''tempurá'', por exemplo, que nomeia um prato de legumes empanados e fritos, derive de ''tempero''.
Processo natural em qualquer país de economia aberta, a modernização da língua criou um fenômeno ainda mais curioso e que estreita ainda mais as relações do Japão com o Brasil. Segundo Adriana, viagens de linguistas japoneses ao País mais especificamente para Assaí, 36 km a Leste de Londrina são frequentes, com o objetivo de estudar como o japonês é falado pelos primeiros imigrantes a virem para cá. ''Os pesquisadores acreditam que a língua falada aqui é mais 'original' do que a usada hoje no Japão'', conta.
Adriana acredita que a preservação da cultura oriental no Brasil não dependa de idade ou mesmo de raça, mas sim de identificação com os costumes. ''Conheço uma pessoa afro-descendente que é budista e frequenta aulas de música. É o meu caso. Se eu puder servir como esta ponte entre estas duas culturas, ficarei satisfeita''.(A.M.)

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