A Brastemp, das antigas, é cor pistache e foi introduzida à cultura com a música de Nina Simone. À sombra, no canto da sala, e com o motor ligado, chorava e chorava. Hoje, batizada de Nina Tache, está repleta de livros e vive feliz. A certeza vem dos donos, Beth Capponi, 34, e Eduardo Ribeiro, 24, que moram no mesmo apartamento mas não são um casal. Eles já estavam acostumados a viver sem uma geladeira. Já Nina, antes de ser Nina, vivia em uma loja na rua Riachuelo e veio para a sala de estar como um presente de um ex de Beth. Não coube na cozinha e durou pouco como geladeira para refrigerar.
"A conta de luz que era de R$ 40 por mês, veio R$ 150", revela Eduardo, editor de vídeos, estudante de design e ainda fotógrafo - com a ajuda de um tripé fez o retrato de Nina com a dupla. "Ela é como Anita: bonitinha mas ordinária", define Beth, que trabalha como produtora cultural. Eduardo deu um jeito para economizar sem tirar Nina da tomada - desligou o motor, mas manteve a luz interna acesa.
"Chorava muito, o que pode ser por conta da música triste. Ela era muito sentimental", lembra Beth. "Nós viajávamos bastante e ela ficava sozinha." E, assim, por ali começaram a entrar livros. Com a companhia de um cardápio diverso, de "Ensinamentos de Prabhupãda" a "Sabedoria de Buda", de uma versão em espanhol do Alcorão às entrevistas de Hitch-cock por Truffaut, de "Tantra - sexualidade e espiritualidade" a "As portas da percepção", de Aldous Huxley, Nina mudou. E hoje, mais de dois anos depois, passa por um momento muito bom.
Os amigos conhecem e se divertem com a situação. É o caso de Sol, personagem da semana passada, e namorada de Lucas, sócio de Eduardo na Destilaria do Audiovisual (www.destilaria.tv). Recentemente, a sala de Nina serviu de cenário ao longa-metragem Eva, em que Eduardo fez a direção de fotografia. Se não gela, Nina não deixou de ser porta trecos e recados. Em uma nota, pendurada por ímã, os pais dele agradecem a Beth. "Muito obrigada pela atenção, carinho e solidariedade que você tem dado ao nosso filho Edu. Marlene e Dirceu."
Mas nem só de livros é feita a vida de Nina. De medicamentos vencidos também. O seu refrigerador leva o apelido de ambulatório e leva desde óleo de copaíba, válido até janeiro de 2007, ao anti-inflamatório nimesulida, vencido em janeiro deste ano. A dupla revela: eles não usam nem um, nem outro. Quando ela está gripada, ele dá cebola crua com mel e água. Ela, limão com mel e gengibre.
No carrinho de mercado que faz as vezes de armário os pacotes de gelatina estão vencidos (um de 2007, o outro de 2008), mas não sem razão. Não tinham uma geladeira funcionando, etapa fundamental para o fabrico de gelatina. Desde a semana passada, a cinco passos de Nina Tache está a recém-adquirida e pequenina Consulbar. O conteúdo revela a receita quase lácteo-vegetariana de Eduardo e Beth, que voltou a comer carne depois de oito anos. Dois passos adiante fica o tanque, que supriu a falta de uma geladeira e era recheado de gelo e cerveja.

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