São Paulo - O que define a individualidade de cada um de nós? O que gera as diferenças sutis de comportamento ou sensibilidade a doenças neurológicas? Teríamos uma ''impressão digital cerebral'', única, intransferível e independente da herança genética? Pesquisas que tentam responder a essas perguntas estão sendo consideradas algumas das mais promissoras da neurociência para o futuro.
Isso porque elas podem explicar não apenas as diferenças de comportamento entre os seres humanos, como também o que faz de alguns mais inteligentes ou mais criativos ou mais hábeis do que outros, e também porque algumas pessoas desenvolvem doenças como autismo e esquizofrenia.
Dois jovens pesquisadores brasileiros estão se destacando em trabalhos nessa área: Alysson Muotri, que trabalha no Instituto Salk, nos Estados Unidos, e Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seguindo linhas de pesquisas independentes, as teorias de ambos mostram que cada neurônio é tão diferente um do outro como se eles tivessem genomas próprios
''São pesquisas complementares que, em resumo, mostram como são complexas as estratégias do cérebro para gerar diversidade neural. Em suma, percebemos serem vários os mecanismos que nos tornam individuais. A impressão digital não está só na ponta do dedo'', compara Rehen.
Genes saltadores - Muotri trabalha com um complexo mecanismo conhecido como retrotransposição, no qual, em linhas gerais, alguns trechos do DNA fazem cópias de si mesmos e ficam ''saltando'' pelo genoma das células cerebrais.
Conforme ''pula'', esse DNA-canguru altera a expressão gênica, ou seja, faz com que alguns genes se expressem mais ou menos do que o considerado normal. Isso provoca uma diferenciação dos neurônios de modo que cada um tenha traços únicos.
''Ao observarmos a cadeia de eventos, entendemos as implicações desse fenômeno. A mudança da expressão dos genes pode causar mais ou menos sinapses. Fazer mais conexões pode modificar toda a rede neural e, em última instância, modificar o jeito de o organismo reagir e mudar o comportamento'', explica Muotri.
Ele acredita que exista uma faixa de pulos considerada ideal que caracterizaria as flutuações normais de comportamento. Muito mais ou muito menos do que isso pode estar ligado ao desenvolvimento de doenças.
Mas esses saltos que acontecem de modo tão distinto entre neurônios e entre indivíduos talvez possam explicar até mesmo o que nos torna humanos, defende o pesquisador. Não à toa, a linha de pesquisa foi eleita como potencial modificadora da neurociência no futuro.

mockup