Nem tão selvagens
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quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Um dos prazeres de quem gosta de andar pelos parques da cidade, em especial pelo Parque Barigüi, é olhar os bichinhos soltos na natureza: são serelepes, pacas, cotias, aves de vários tipos, e, um dos preferidos, o sagüi. O problema é que esse simpático macaquinho é uma espécie exótica, ou seja, não é natural dessa região. Trazido do Nordeste, principalmente da Bahia, normalmente por turistas que se encantam com o animalzinho, que é vendido ilegalmente nas estradas, o sagüi não encontra, aqui, seus competidores naturais. Sem predadores, prolifera-se muito e coloca em risco outras espécies, já que alimenta-se de ovos e filhotes de passarinhos.
Esse é apenas um exemplo do desequilíbrio que a introdução de espécies exóticas pode causar ao meio ambiente. É também exemplo do destino mais comum que muitos animais silvestres acabam tendo depois que seus proprietários se cansaram da tarefa de tê-los como animais de estimação. São papagaios espécie monogâmica, que vive em casais que ficam estressados e arrancam as penas porque têm que viver sozinhos; pássaros que tornaram-se barulhentos causando reclamação dos vizinhos; macacos-pregos, que eram tão engraçadinhos quando pequenos, mas tornaram-se grandes e agressivos; e até tartarugas-tigre, que antes cabiam na palma da mão, e agora passam de 20 centímetros, exigindo mais cuidados na limpeza do aquário.
A recomendação da bióloga Elenise Angelotti Bastos Sipinski, da Sociedade de Proteção à Vida Selvagem (SPVS) é que, de preferência, as pessoas não tenham animais selvagens. Elas podem ver esses animais soltos em algumas áreas do entorno do Parque Barigüi, Tingüi, Tanguá. Vá com uma roupa não colorida, que se confunda mais com o meio ambiente, no início da manhã ou fim de tarde, porque no período de sol forte os bichos ficam mais escondidos, e observe o animal em uma área natural, sugere.
Mas se a vontade de ter um bicho diferente for mesmo muito grande, a principal recomendação é nunca adqüirir animais em beira de estrada ou em lojas que não tenham o registro de seus animais junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Os animais vendidos nesses locais são ilegais, provenientes do tráfico. Ou seja, o melhor lugar para comprar animais silvestres é em criadouros devidamente legalizados, que são cadastrados no Ibama, ou em pets ou aviários que forneçam a nota fiscal, que é garantia de que o animal tem seu registro no órgão.
A coordenadora do Núcleo de Fauna do Ibama no Paraná, Eunice de Souza, explica que pela legislação federal os animais selvagens ou silvestres são um bem público, ou seja, não tem dono, são impropriáveis, mesmo encontrando-se em propriedade privada. Assim, eles são tutelados pela União. o que significa que para ter propriedade é preciso obter autorização da União, o que é feito pelo Ibama. O Ibama faz controle dos criadouros e do comércio existente, diz. No Paraná, há entre 30 a 40 criadouros cadastrados, sendo a maioria de produção comercial, que criam pacas, capivaras, emas etc. Cerca de 10 são de animais de estimação, que podem ser aves, como papagaios, canários e calopsitas, répteis e micos.
Segundo Elenise, o comércio ilegal é a principal ameaça às espécies de silvestres. Quanto mais ameaçado de extinção, mais ele vale no comércio ilegal, diz. Os principais animais vendidos ilegalmente, são aves, em especial papagaios e passarinhos que cantam, como canário, pintassilgo, sabiás e o pássaro preto. Primatas como o macaco prego e o mico também estão na lista do tráfico de animais, 3º mais rentável do mundo e responsável pela ameaça de extinção de vários animais. De cada 10 animais traficados, nove morrem. E os que sobrevivem não se reproduzem, ficam em más condições, ressalta.
O segundo conselho para quem quer um animal silvestre é o mesmo válido para donos de cachorros e gatos: posse responsável. Antes de comprar um animal, a pessoa deve conhecer bem os hábitos da espécie, informar-se sobre quanto tempo vai viver, o que ele come, quanto ela vai ter que gastar com alimentação, veterinário, diz Eunice. Ela explica que um dos problemas mais comuns são pessoas que vão se mudar e que querem se desfazer do animal. Uma arara, por exemplo, vive 70 anos, ela tem que pensar quem vai cuidar dela a vida toda. Quem compra um papagaio tem que ver quanto vai gastar com alimento, com suplemento de cálcio. Não dá para dar só bolacha com café, afirma.
Quando se desfazer do animal é inevitável, é importante também entrar em contato com Centro Especializado de Animais Silvestres (Ceta) do Ibama, que vai buscar o melhor destino. O importante é que as pessoas não soltem o animal no meio ambiente, uma vez que na maioria das vezes o bichinho não tem mais condições de sobreviver no meio natural. Em caso de animal exótico, há ainda o risco de desequilíbrio ambiental.
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