Nem furacão, nem tsunami, ameaça a Londrina é animal
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domingo, 27 de novembro de 2005
Alan Maschio<br> Reportagem Local 
Aos brasileiros que acham que o fim do mundo já começou, há pelo menos o alento de que as pragas ou desastres naturais que atormentam a humanidade hoje ocorrem em lugares distantes, inalcançáveis para a maioria dos nossos cidadãos. Furacões nos Estados Unidos, tsunamis e gripe aviária na Ásia e invasão de ratos na Austrália são realidades longínquas para um povo que goza da vantagem de viver num País que é atormentado pela corrupção e pela pobreza, decorrente, principalmente, da falta de educação. O alerta, no entanto, recai justamente sobre a falta de educação.
O Brasil e mais especificamente, Londrina podem, sim, ter que enfrentar uma catástrofe, bem menos glamourosa do que os filmes pintam. Não se trata, contudo, das ameaças anunciadas erroneamente por uma tal de Mãe Diva, que chegou a avisar a população de Londrina sobre uma grande tempestade que assolaria a cidade no início desse mês. Ledo engano. A tal tempestade sequer existiu e Londrina passou por mais uma noite de absoluta tranquilidade pelo menos, no que se refere às condições climáticas.
As ameaças que rondam Londrina são reais, e geradas, sim, pela ação direta e irresponsável do homem sobre a natureza. Londrina não vai ser invadida por morcegos, como aconteceu com uma pequena cidade do interior do Maranhão. Os riscos que circundam o Norte do Paraná são velhos conhecidos dos brasileiros. Riscos que, ao contrário do que foi anunciado pela Mãe Diva, devem ser levados em consideração, tanto no aspecto econômico como a febre aftosa como nos de saúde e social caso da velha dengue.
Incômodo das formigas
Em abril deste ano, a dona de casa Isoldina Tiroli mostrou à reportagem da Folha uma grande vasilha de plástico cheia de formigas mortas. A reclamação era quanto à falta de atitude por parte da Vigilância Sanitária e da Secretaria do Ambiente frente ao problema. No Jardim Roseira, na Zona Sul da cidade, havia sido construído sobre um formigueiro gigante. Nenhum alimento podia ser deixado, mesmo que por poucos minutos, sobre a mesa. Crianças alérgicas sofriam com as picadas e até os animais domésticos estavam sendo molestados pelos insetos. ''Precisei levar meus filhos em um médico, que me receitou uma pomada contra as picadas. Elas já estavam se transformando em feridas'', descreve a também dona de casa Maristela Netzel.
O inverno chegou e as formigas deram uma pequena trégua para os moradores do Roseira. ''Como a maioria absoluta dos insetos, as formigas se reproduzem com mais facilidade no calor'', observa o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) Alfredo Carvalho, doutor em Entomologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). E a alergia, explica ele, deve-se ao ácido fórmico, produzido por todas as formigas e liberado durante a picada.
A migração destes pequenos insetos do campo para a cidade encontra explicações quase óbvias. ''Nos centros urbanos, as formigas encontraram um meio fácil para adaptação. Qualquer fresta ou buraco pode se transformar em um ninho'', explica Carvalho. E o combate a este insetos não é nada fácil. ''Pulverizar veneno na parede de uma casa, por exemplo, implica na morte somente das formigas que estão fora do ninho, cerca de 5% do total'', garante o pesquisador.
Estima-se que em um hectare de floresta seja possível encontrar até 10 milhões de formigas. Na cidade, este número é ainda maior, o que explica o fato de os moradores do Jardim Roseira não conseguirem se livrar dos insetos. ''Eu mesmo já encontrei ninhos de formigas até dentro do meu despertador'', lembra Carvalho.
No entanto, o fato de existir, no mundo, cerca de um milhão de formigas para cada pessoa não é motivo para preocupação. ''As formigas têm uma função ecológica extremamente importante, acelerando a decomposição orgânica, por exemplo. Uma infestação por este tipo de inseto também é muito improvável, já que a população é grande e não há muito espaço para que ela aumente ainda mais'', completa. Os riscos, segundo o professor, resumem-se a casos particulares, como o das formigas encontradas em ambientes hospitalares.


