Negociações milionárias no América
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Nas décadas de 1960 e 1970, um edifício no Centro de Londrina concentrou grande parte do comércio de café produzido no Paraná. Na época, o local era tão importante para a economia local que se tornou praticamente impossível encontrar uma sala para alugar no Edifício América. Contam os que trabalhavam no famoso prédio que o cheiro do café recendia pelos corredores. Nas salas, experientes provadores classificavam a bebida.
Daniel Henrique de Andrade, de 75 anos, chegou ao topo da carreira trabalhando no América. O café entrou na vida dele em 1961, em Mandaguaçu, onde aprendeu a "provar" a bebida. Em Londrina, chegou em 1971, quando já trabalhava na multinacional alemã Sanbra, que tinha uma extensa operação no comércio de commodities no Paraná.
Andrade chegou a atuar como gerente comercial da empresa e, no auge da carreira, fazia a previsão de safra para todo o Brasil, gerando dados que orientavam o mercado de café no País. Os números negociados impressionam. Entre 1971 e 1975, ele chegou a comprar 700 mil sacas de café por ano. Na época áurea, bateu o próprio recorde ao negociar 86 mil sacas de café em apenas um dia. Trabalhar com estratégias para obter o melhor lucro possível do ouro verde acomodado nas sacas tinha suas consequências. "Tinha dia em que eu chegava em casa suando frio e não conseguia dormir. Era muito dinheiro... Eu assinava pilhas de cheques diariamente", conta.
Nosso lendário personagem coleciona histórias do tempo em que as atenções mundiais da cafeicultura se voltavam para Londrina. Em uma ocasião, Andrade deu uma entrevista para o jornal inglês Financial Times e, na conversa, comentou sobre a possibilidade de geada em determinada data. "A previsão se confirmou e, tempos depois, fui chamado pela imprensa inglesa de homem do tempo", diverte-se.
Degustador
O curitibano Nilton Matoso, de 80, aprendeu no Porto de Paranaguá a degustar café. Chegou em Londrina em 1957 e, no auge da produção cafeeira, também "batia ponto" no Edifício América, onde começou a trabalhar em 1961, como classificador e provador de café no Centro de Comércio de Café de Londrina, criado um ano antes. Matoso era o responsável por classificar o café produzido pelos 487 associados. O trabalho era fundamental para determinar a qualidade da bebida e, consequentemente, o preço.
O Centro foi peça fundamental na engrenagem que fazia girar a economia da capital mundial do café. No auge da produção, Matoso chegou a realizar cem provas em apenas um dia. Cada prova consiste na degustação de pelo menos 10 recipientes de café torrado e decantado em água quente, que nunca é ingerido.
Por ter vivido intensamente essa época, o antigo provador tem uma visão pitoresca sobre a cidade. "Quando ando pelo centro, não vejo edifícios, vejo sacas de café empilhadas", conta. A geada de 1975, para ele, foi apenas um "xeque-mate" no ciclo cafeeiro que já mostrava sinais de declínio desde 1969, quando uma geada de menor intensidade incentivou os produtores a investir na soja. Apesar da percepção, ele não passou incólume pelos rostos em desespero de produtores rurais que, em apenas uma noite, perderam tudo.



