Manaus (AM) - Já faz um mês que todas as noites Daniela, 6 anos, chora de dor no dente. A falta de escovação adequada facilitou a formação de uma enorme cárie. Um problema de fácil solução, se a menina não morasse em Floresta, distrito do município de Borba (AM) com 133 habitantes, isolado pelo Rio Madeira.
A mãe sofre com as lágrimas de Daniela, mas o sentimento de resignação parece amortecer a dor. Todos ali já passaram por isso. ''Ela ia ter que ficar com a dor até o dente cair'', desabafa Simone Rodrigues. O dentista mais próximo fica a seis horas de rabeta (pequeno barco a motor utilizado em rios de baixa profundidade). Enfrentar as águas traiçoeiras do Madeira para extrair um dente não estava entre as prioridades da família.
Essa é a realidade de seis milhões de brasileiros. Na região amazônica praticamente não há estradas e, quando elas existem, estão em péssimo estado. Aeroportos também são raros. Os milhares de quilômetros de rios navegáveis tornam-se a única alternativa.
Existe ainda a batalha contra o clima - extremamente quente e úmido - e os perigos, dificuldades e doenças impostos pela selva. São 3,6 milhões de quilômetros quadrados, 40% do território nacional, com uma baixíssima densidade demográfica: 3,4 habitantes por quilômetro quadrado. A densidade em Londrina, por exemplo, fica em 291 habitantes por quilômetro quadrado.
Nessa região com dimensões continentais, muitas vezes a única esperança vem embalada pelas marolas. Três navios hospitais são mantidos pela Marinha do Brasil, em uma parceria com o Ministério da Saúde, para atender as pequenas comunidades ribeirinhas. Levam atendimento médico e odontológico aos lugarejos isolados.
Em 2009, essas embarcações percorreram mais de 52 mil quilômetros pelos principais rios da Amazônia - distância suficiente para dar uma volta na Terra com 10 mil quilômetros de sobra, atendendo 57 mil pessoas.
As missões chamadas de Asshop (operações de assistência médica, odontológica e de orientação sanitária realizadas pela Marinha do Brasil) são realizadas nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima. A Marinha divide a região Norte em polos de saúde. Os rios mais extensos são subdivididos em dois ou mais polos, que podem ser atendidos pelos navios até três vezes ao ano. No entanto, a frequência de visita depende do regime de cheias e vazantes de cada rio, de modo que haja segurança para a navegação.
A reportagem da FOLHA acompanhou essa saga pela vida e navegou por 1,3 mil quilômetros do Rio Madeira, entre Manaus (AM) e Porto Velho (RO), a bordo do Navio de Assistência Hospitalar Carlos Chagas.
Foram 12 dias, oito comunidades atendidas, 1.420 procedimentos realizados (atendimentos odontológicos, consultas médicas, pequenas cirurgias e exames) e 17 horas de voo com o helicóptero.
A primeira comunidade visitada foi Floresta, distante 322 quilômetros fluviais de Manaus. Os 133 habitantes do lugarejo vivem em 32 casinhas coloridas de madeira. Uma pequena e mal conservada igreja, uma escola e uma espécie de salão completam o cenário. O único meio de transporte é o barco.
Lá não há farmácia, mercado ou qualquer outro tipo de comércio. Também não existem telefone fixo e sinal de celular. O único contato com o ''mundo'' se dá por meio da televisão que, junto com os jogos de futebol, consistem nos principais meios de diversão da população ribeirinha.
Os programas da telinha já despertaram o desejo de ser atriz na jovem Gabriela Almeida. ''Quero filmar como eles filmam, quero ser atriz e também médica''. Mas os sonhos de Gabi esbarram no desejo de continuar em sua terra natal. ''Aqui eu gosto das frutas no pé, do sabor da manga, do ingá, do jambo e do maracujá.'' Os programas preferidos são os desenhos do pica-pau e a novela ''Viver a Vida'', mas a maior parte do tempo da menina é dedicado às poucas e bem cuidadas bonecas.
As palavras de Gabriela são interrompidas pelo choro de Conceição Pereira, 31, quando percebe a chegada dos médicos à comunidade. Com as mãos levantadas ao céu e lágrimas no rosto, agradecia a Deus. Passara a manhã toda rezando e pedindo que o Senhor enviasse ajuda para o irmão que estava com uma grave ferida na perna. Sussurrava ''milagre, milagre'' a todo instante.
O irmão de Conceição, Ismael Pereira, 40, foi atacado por uma sanguessuga. O animal ficou grudado na perna do pescador. Os amigos, na tentativa de ajudar, jogaram álcool e atearam fogo na perna dele.
O bicho saiu, mas a queimadura provocada pelo álcool foi grave. A falta de atendimento e os dias de espera fizeram o quadro caminhar para uma infecção. Já não era mais possível movimentar a perna.
Com o entardecer próximo, não foi possível uma evacuação aérea, mas, diante da gravidade do quadro, os médicos recomendaram que o homem fosse levado para Borba. Ismael enfrentou seis horas navegando na escuridão do Madeira. Ele poderia ter morrido em até 48 horas.
* O jornalista Sérgio Ranalli viajou a convite da Marinha do Brasil.

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