Manaus (AM) - ''A realidade da odontologia na Amazônia é a realidade da odontologia de 100, 150 anos atrás. Quando não se trabalhava prevenção e muito pouco de restauração'', desabafa Maristela Nonnemacher, 29 anos, única paranaense a bordo da expedição acompanhada pela FOLHA. A dentista nasceu em Marechal Cândido Rondon (Oeste) e se formou na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Maristela chegou a Manaus sozinha, sem conhecer ninguém. A adaptação ao clima e à comida foi difícil e ela pensou até em desistir. Dois anos depois descobriu o trabalho que a Marinha do Brasil fazia na selva. Foi paixão à primeira vista.
Inscreveu-se e foi selecionada para o corpo de oficiais temporários, função que pode exercer por até oito anos. Divide o tempo entre o trabalho e os estudos - ela quer ingressar definitivamente na armada.
O trabalho com os ribeirinhos mudou os conceitos de Maristela. ''Aqui posso fazer a essência da odontologia, não faço pelo dinheiro, faço pela essência. Para ensinar as crianças a escovarem, para tentar mudar essa realidade e sair do padrão de perda de dentes.''
Encantos e encontros com a selva mexeram também com suas convicções religiosas. ''Antes de entrar na Marinha, eu me considerava ateia. Hoje vejo como uma missão, como uma oportunidade de fazer o bem. Recebo para isso. Quando faço pelo ribeirinho, não faço pelo dinheiro, mas por amor.''
Maristela percebeu que a relação dos moradores locais com o tempo está mais condicionada aos eventos da natureza do que ao relógio. Não faz o menor sentido saber as horas num lugar onde os eventos são regidos pelo nascer e pôr do sol. Pelo momento de pescar ou de colher as frutas. Pela cheia ou pela vazante dos rios.
Nem os anti-inflamatórios prescritos pela dentista escaparam das garras da natureza. ''Se falar para o ribeirinho tomar medicamento de seis em seis horas ele não entende. Você tem de explicar que ele tem que tomar o remédio quando o sol nasce, quando ele está a pino, quando ele se põe e antes de dormir. Se não ele não toma.''

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