NAVIOS DA ESPERANÇA - Rios, selva e um bocado de felicidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de dezembro de 2009
Sergio Ranalli<br>Editor da FOLHA 
Manaus (AM) - A ausência de recursos básicos de saúde, educação, transporte e comunicação por si só não é capaz de tornar infelizes os moradores ribeirinhos. Nas dezenas de entrevistas, nem um único habitante manifestou o desejo de mudar para qualquer outro lugar. Pelo contrario, o repúdio pela ideia era imediato.
A dentista paranaense Maristela Nonnemacher, 29, sintetiza a relação do ribeirinho com a vida e com a felicidade: ''Se eles tiverem a rede, a sombra, o peixe e estiverem juntos com a família, então estão felizes''.
Nascido em Delícia, distrito de Manicoré (AM) com 170 habitantes, o seringueiro Smith de Oliveira Menezes Filho, 50, rodou por todas as regiões do país. Mas depois de cinco anos na estrada, decidiu que não seria feliz se não sentisse todos os dias o sabor da farinha produzida na terra natal.
Fez as malas, largou o emprego e hoje abre um sorriso quando fala que é o homem mais feliz do mundo, pois três vezes ao dia pode sentir o sabor da farinha de mandioca que ele mesmo produz.
Há 65 anos morando em Floresta, Nilson Pantoja, 67, já conheceu Manaus. ''Tudo na cidade grande é bom, mas não é da gente. Aqui a gente dorme na rede e não tem perigo. O único risco é carapanã (mosquitos sugadores de sangue).''
Já Raimundo Correia, 29, morador de Vencedor (?), revela: ''Para mim a felicidade é estar junto com meus amigos, com a minha família. Nossa diversão é o futebol, as festas e as danças''.
Comandante do navio Carlos Chagas, Ricardo Guastini conhece todas as regiões do país e boa parte do mundo e corrobora com ideia de felicidade do ribeirinho. ''O habitante dessa região tem a noção real de que a felicidade dele ele encontra ali. Consegue gerar a felicidade com o pouco que tem disponível. Não vejo aqui aquela gana por coisas materiais.''


