O relógio indica 14h10. Em uma das salas de parto da Maternidade Municipal Lucilla Ballalai, Gislaine Aparecida Martins, 24 anos, sente dores. Ao seu lado, Diego Roberto Turman, 18, não consegue disfarçar a apreensão. O primeiro filho do casal está para nascer.
As dores aumentam, as contrações uterinas intensificam-se. O médico e a enfermeira orientam a mãe. O momento é de apreensão. De repente, o pequenino Mateus vem ao mundo. Ele deixa o conforto e a proteção do útero materno e conhece a luz. Pela primeira vez, o menino respira. Até então, ele tinha a comodidade de receber o oxigênio em seu sangue direto da mãe.
Os alvéolos pulmonares se enchem. O pulmão começa a funcionar, Mateus puxa o ar traquilamente. O pai corta o cordão umbilical e ele desanda a chorar. ''Um chorinho que pode até incomodar depois, mas que é bom demais ouvir neste momento'', comenta Diego, enfim um pouco menos tenso.
A história do nascimento de Mateus é a síntese de um ''milagre'' que acontece aos milhares todos os dias. Agora mesmo, durante os segundos que você gastou para ler estas linhas, mais de 100 pessoas nasceram no mundo. A vida renova-se a cada instante.
No entanto, apesar de ser considerada como algo fantástico - até mesmo por cientistas - e o bem mais valioso que qualquer ser humano pode ter, a vida, muitas vezes, não recebe o seu devido valor. Assassinatos acontecem por motivos fúteis. Jovens, com todo um futuro pela frente, arriscam-se no trânsito, que a cada ano produz estatísticas mais desanimadoras. Porém, para os especialistas entrevistados pela FOLHA, valorizar esse milagre é preciso.
Coisas que a ciência entende, mas ainda não consegue explicar, sobre a formação de um novo ser e até sobre o funcionamento do corpo humano tornam ainda mais impressionante a compreensão do valor de uma vida, que parece algo ''arquitetado'' com o máximo de precisão.
Da fecundação à multiplicação
Para o doutor em Genética Humana e chefe do departamento de Biologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Wagner José Martins Paiva, a vida humana começa no momento da fecundação, ou seja, quando um espermatozóide encontra-se com o óvulo. São os chamados gametas, que, a partir do encontro, formam uma só célula. Doze horas depois já começa a divisão celular, que os biólogos chamam de mitose. A multiplicação é tamanha que um adulto tem em seu corpo aproximadamente 100 trilhões de células.
Estudar as combinações genéticas é viajar por um mundo muito interessante, que pode explicar alguns ''mistérios'' da vida. As contas nem sempre são simples, mas a transmissão de características físicas feitas pelos cromossomos - 23 do homem e 23 da mulher -, que os pais doam aos seus filhos, explicam algumas coisas. Por exemplo, porque os seis bilhões de habitantes do planeta Terra são diferentes uns dos outros.
''Isso acontece porque a probabilidade de que um espermatozóide, o gameta masculino, seja igual ao outro é de uma em cada oito milhões, devido às combinações de transmissão de características dos 23 cromossomos que o menino recebeu do pai e dos 23 que recebeu da mãe'', explica Paiva.
Pesquisador da genética humana, quando questionado se considera a vida com um milagre, ele não titubeia. ''A caneta que tenho na mão, feita de plástico, tem as mesmas substâncias químicas que estão no meu corpo. A diferença é que eu estou vivo e ela não. Por isso, considero a vida como um milagre'', responde.

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