O cinema brasileiro nunca foi lá muito feliz quando tentou falar do regime militar no País. O filme ‘‘Batismo de Sangue’’ (110 minutos), em cartaz nas telonas, acompanha a maioria. A idéia de mostrar a relação de uma parte da igreja católica com um grupo de guerrilheiros que lutava contra o regime militar é boa, mas não foi de fato aproveitada pelo roteiro, escrito com base num livro do Frei Betto. Aliás, até quase a metade do filme, o roteiro nem se preocupa em tratar de algum assunto específico. Quando chega a algum lugar, o filme exibe a violência sofrida pelos religiosos presos e trata da tortura - de forma positivamente crua, aliás.
  Mas é somente aí que o espectador descobre o filme, depois de quase uma hora sentado na poltrona do cinema. E, mesmo assim, quando opta por falar da tortura e suas conseqüências na vida de quem sobrevive ao episódio (explícito na personalidade do Frei Tito, que acabou se suicidando na França), o filme continua raso. Quase tenta sair do maniqueísmo fácil, torturadores maus versus revolucionários bons, mas não consegue. Ensaia falar da relação dos ideais cristãos com a luta que se travava na época, mas não vai a fundo. Perde-se a oportunidade, reforço aqui, de retratar a interessante ligação da igreja católica com o período.
  O tema central do filme (ou o que deveria ser o tema central do filme) se perde na superficialidade, portanto. Mas o pior não está aí. Está na atuação dos atores. O texto é decorado à risca, as pausas entre uma fala e outra parecem mesmo marcadas no cronômetro, assim como cada movimento dos atores. A linguagem coloquial é deixada de lado. Ali, se usa a norma culta até em reuniões de estudantes.
  Constrangimento semelhante, fazia tempo que o espectador não sentia, talvez desde ‘‘O que é isso, companheiro?’’, lançado em 1997, quando o cinema brasileiro voltava a dar passos mais largos e o público até perdoava, em parte, a visível falta de intimidade dos atores com as telonas. Em tempos de ‘‘O ano em que meus saíram de férias’’ - ótimo filme brasileiro lançado em 2006 e cujo cenário de fundo também é o regime militar - ‘‘Batismo de Sangue’’ não sai absolvido.

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