NAS TELONAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de maio de 2007
Catarina Scortecci<br> Equipe da Folha 
''O cheiro do ralo'' (100 min.), um dos filmes brasileiros hoje nas telonas, é bom à beça. A narrativa é protagonizada por Lourenço (o ator Selton Mello), um sujeito solitário (por opção) e dono de um estabelecimento comercial que compra objetos usados. Por lá, é um entra e sai de gente que precisa vender (às vezes a qualquer custo, literalmente) o objeto que carrega na mão - seja uma tranqueira qualquer ou a única relíquia da família. Mas Lourenço não se comove com os tipos que aparecem por lá desesperados por uns trocados. E, influenciado pelo mau cheiro que exala do ralo do seu banheiro na loja (hipótese levantada pelo próprio), Lourenço passa a querer comprar outras ''coisas'', como a... bem, a parte que ele mais admira na anatomia da moça da lanchonete, idolatria diária do sujeito. Assim, Lourenço pularia a parte do se relacionar com uma pessoa - tarefa que, ao que consta, nunca o estimula.
E é assim que Lourenço começa o processo de ''coisificação'' dos seus desejos, que inclui ainda a compra de um ''olho'' para substituir a ausência do seu pai. Pois é, o mote do filme vai parecer bizarro quando você tentar contá-lo a alguém (experiência própria), mas Lourenço é, na verdade, bem real. Seu nicho é urbano, cinza, claustrofóbico. O que não surpreende quem já conhece o autor de quadrinhos marginais Lourenço Mutarelli, cujo romance de estréia deu base ao filme. O próprio Mutarelli, aliás, interpreta um dos personagens pitorescos da produção.
Sobre o ''cenário'', a propósito, vale aqui um aviso. A narrativa se passa em São Paulo, mas a gente nem vê a cidade. O espectador se acostuma a poucos lugares: a loja do Lourenço, sua casa, a lanchonete. Quase mais nada. Somado ao ar niilista do filme e do personagem, o ''cenário'' é mesmo suficiente, e necessário. Bom também para a saúde financeira da produção, que conseguiu gastar menos verdinhas do que o previsto.
Aliás, para quem acha que produções pequenas, e brasileiras, não têm espaço, vale dar mesmo uma espiada no ''O cheiro do ralo''. Lá tem humor negro (o filme é, à frente de qualquer outro mérito, muito engraçado), boas atuações (todas, sem exceção) e inteligência.


