FOLHA DE LONDRINA: Como deve ser o relacionamento entre prefeitura e o governo do Estado?
MAURÍCIO FURTADO: O relacionamento é institucional. Esse relacionamento não pode depender de quais são as pessoas que estão na prefeitura ou no Estado. Certamente seria o caminho que procuraríamos percorrer. Mas não tenha dúvida que em qualquer equipe de trabalho existe maior ou menor afinidade. No caso da política brasileira os egos das pessoas, os projetos políticos divergentes atrapalham o relacionamento institucional. Quem paga a conta é a população.

FOLHA: Como o senhor vê a questão do nepotismo?
FURTADO: Vejo com rigor. Eu diria que tem que ser evitado ao máximo. Acho inclusive que as questões legais a esse respeito devem ser enfatizadas.

FOLHA: O senhor é favorável ao financiamento público de campanha?
FURTADO: O sistema atual é bastante perverso. A nossa possibilidade de obtenção de recursos para efetivamente colocar uma campanha em prática é bastante limitado. Aqui em Curitiba adotamos a norma de só aceitarmos contribuição de filiados. Mas isso limita bastante. As regras gerais da campanha para determinar o tempo e tudo mais também implicam em uma desigualdade excessiva. Este ano viremos para a campanha com um minuto e 45 segundos. Entendemos que é suficiente e adequado dentro da nossa realidade, mas convenhamos que é excessivamente desproporcional a 11 minutos. Talvez isso merecesse estar mais próximo. Agora tem que ter viabilidade financeira para fazer um programa de quatro a cinco minutos. E onde é que vou buscar o recurso? Acho que não vale a pena andar vendendo a alma ao diabo. E certamente não faria isso porque se fosse para fazer exatamente igual a gente poderia ter ido para outro partido. Enfim acho só que financiamento público de campanha representa um degrau a mais na consciência política global da população.

FOLHA: E o senhor concorda com o entendimento do TSE de que o mandato pertence ao partido e não ao candidato?
FURTADO: Sim. É outro item de segurança para a população. Acho que a população deve cada vez mais cobrar que os partidos façam o acompanhamento das pessoas que estão exercendo o mandato em nome deles.

FOLHA: E o que o senhor pensa da cassação de registro de candidatos com pendências judiciais?
FURTADO: Apesar do entendimento geral manifestado inclusive no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF) de que todos são iguais quero dizer que no meu ponto de vista pessoal - não do partido - são iguais, mas não são tão iguais. Faço essa distinção no seguinte ponto: a simples denúncia não afeta a igualdade porque a gente sabe que inimizade política gera denúncia de tudo quanto é tipo. Mas a partir do instante em que tenha havido uma condenação, mesmo que em primeira instância e o recurso esteja correndo, pessoalmente sou favorável ao impedimento de candidatura. A alegação geral é que não é razoável nem justo ou democrático impedir a possibilidade de concorrer de alguém que tenha sido injustamente condenado. Mas prefiro acreditar que os tribunais funcionam direitinho dentro de cada processo. Quando alguém é liberado em instâncias superiores, é considerado inocente, é uma exceção, não a regra. Isso não pode justificar a ampla liberdade de qualquer um que com ficha reconhecida e condenações repetidas ter acesso a concorrer a um cargo público.

FOLHA: O senhor é a favor de cotas na universidade?
FURTADO: Claro, claro, claro. Sem sombra de dúvida. Sou favorável a cotas de todos os tipos que procurem minimizar os efeitos da desigualdade extrema. Entendo que não é o ideal, mas é um bom começo. Os negros foram amplamente prejudicados, tirados de uma realidade cultural, inseridos em outra. Temos hoje os índices de criminalidade mais elevados entre os negros do que entre os brancos, os níveis salariais mais baixos. Há uma história aí que não caiu do céu nesse instante. E de alguma forma precisamos resgatar isso até mesmo porque essa realidade trabalha contra a gente, não trabalha a favor. Sou pelas cotas sim.



REGRAS
O entrevistado de hoje na série da FOLHA DE LONDRINA sobre os candidatos ao cargo de prefeito de Curitiba é Maurício Furtado, do PV. A ‘‘sabatina’’ com os políticos aconteceu no mês de agosto, na sucursal da FOLHA, em horários e datas diferentes. As regras foram informadas previamente para as assessorias dos candidatos.
A publicação segue ordem alfabética nas edições do FOLHA CURITIBA. A próxima entrevista será publicada na próxima terça-feira e vai trazer as propostas do candidato Ricardo Gomyde (PC do B).

mockup