‘‘Não há população indígena
que não mereça ser salva’’
Agência EstadoLevi-Strauss hoje, aos 91 anosAqui, trechos do relato escrito pelo antropólogo Claude Levi-Strauss, que hoje reside em Paris, sobre os índios que encontrou na histórica viagem feita 1935 ao sertão do Norte do Paraná:
- ‘‘Índios? De verdade? Selvagens? São as perguntas que nos fazem desde que chegamos. Talvez tenham os curiosos a secreta esperança de uma iniciação em estranhos costumes primitivos, nús, enfeitados de penas e dançando, com berros esquisitos ao luar. A realidade etnográfica é muito mais complexa do que estas imagens cheias de poesia. Os índios do Tibagi são mais civilizados do que se espera e mais selvagens do que se imagina’’.
- ‘‘(...) Formada, por um lado, de antigas tradições resistentes à influência dos brancos e, por outro, de empréstimos tomados à civilização moderna, constitui sua cultura um conjunto original, cujo conhecimento e estudo são tão essenciais e difíceis quanto os dos primitivos puros. Principalmente depois que se viram estes índios entregues a seus próprios recursos, é nos dado assistir a uma estranha mutação do equilpíbrio superficial entre a cultura moderna e a primitiva’’.
- ‘‘ (...) Mal alimentado, mal protegido, é o índio uma presa fácil para todos os males. Os colares de sementes ou canudos de pena de urubú, e os emplastros de barro vermelho nas feridas são maus desinfetantes. Serão mais eficazes as ervas e favas do mato, preciosamente conservadas em recipientes fechados com rolhas de palha de milho? Quando o enfermo se sente demasiado fraco, fica muitas vezes sozinho na aldeia abandonada’’.
- ‘‘Reúnem-se os habitantes em volta de uma fogueira acessa no chão e que queima dia e noite. Os homens vestem, geralmente, uma camisa em tiras e um par de calças velhas; as mulheres, um simples vestido de algodãozinho por cima da pele, quando não apenas uma coberta enrolada por baixo das axilas; as crianças, o mais das vezes, andam completamente nuas. Usam todos, como nós mesmos durante a viagem, largos chapéus de palha, única indústria e recurso único dos índios. Nos dois sexos e em qualquer idade é tipo mongólico patente: estatura pequena, face larga e chata, maçãs salientes, olhos alongados, pele amarela, cabelos negros e lisos – que as mulheres usam indiferentemente longos ou curtos – pêlos raros e muitas vezes inexistentes. Um só cômodo é habitado. Nele se consomem, durante o dia inteiro, batatas doces assadas na cinza, donde são retiradas por meio de pinças compridas de bambú. Nele dormem os índios sobre uma camada fina de samambaias ou uma esteira de palha de milho, estendidos com os pés voltados para o fogo. Alta noite, são as raras brasas subsistentes e a parede de troncos de palmitos, mal unidos, uma fraca defesa contra o frio glacial de mil metros de altitude’’.
- ‘‘(...) Em verdade, que valem nossos mil réis para esse velho índio tremendo de febre, a 100 quilômetros do armazém mais próximo dos brancos? Fica-se envergonhado de estar ali a tentar arrancar desses homens tão desprovidos de tudo um insignificante instrumento cuja perda será uma irreparável diminuição...’’
- ‘‘(...) Este esforço para restabelecer a originalidade das civilizações primitivas já foi iniciado nos Estados Unidos. O ‘New Deal’ contém, sobre o assunto, medidas que merecem ser meditadas e já vêm produzindo felizes resultados. Sabemos que os especialistas brasileiros não as ignoram e compreendem plenamente o seu alcance. Deveria pois o esforço de cada Estado desde já adotá-las. Não existe população indígena, por mais degenerada e ‘falha de cultura’ que possa parecer aos olhos profanos, que não mereça ser salva, em seu próprio benefício e no da ciência. Os métodos antigos revelaram-se concomitantemente perigosos e ineficientes. Uma grande experiência pode começar’’.

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