Não faço questão de ser pop, diz padre apresentador de TV
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sábado, 07 de outubro de 2006
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Até o Papa João Paulo II já foi considerado pop, seguido por uma procissão de padres e religiosos que souberam converter os seus 15 minutos de fama a serviço do Evangelho. A onda não passou, ainda que tenha baixado um pouco.
Porém, existe uma nova voz grita no deserto da crise existencial - comum na sociedade pós-moderna - fazendo com que as pessoas busquem socorro no sagrado. São padres que nadam no sentido contrário dos que apostam em malabarismos para atrair o rebanho jovem: ''Eu não faço questão nenhuma de ser pop''.
Apesar desta afirmação, o padre Delci da Conceição Filho, 36 anos, não abre mão dos recursos da mídia na missão, apresentando o programa ''Mãos que Evangelizam'', às sextas-feiras, a partir das 16 horas, com reprises em horários alternativos na grade de programação da TV Canção Nova, emissora católica da Comunidade Canção Nova. O programa é gravado em Londrina.
Isso representa anunciar a palavra de Deus numa igreja virtual para um público de 52 países e, praticamente todo o planeta, através da internet, exceção ao mundo muçulmano, onde o regime político-religioso mantém as portas fechadas para a pregação cristã.
''Uma das coisas importantes da comunicação é poder potencializar os meus sinais para que, através desse sistema, a palavra de Deus possa chegar mais rápida e a todos os surdos e os que estão sintonizando a Canção Nova'', ressalta ele, que é da ordem religiosa Padres da Pequena Missão para Surdos, fundada há 100 anos por Giuseppe Gualandi (1826-1907), trabalhando com a educação e evangelização de surdos.
Apesar de ter nascido em Alvorada do Sul (68 quilômetros ao norte de Londrina), o religioso morou em Primeiro de Maio (61 quilômetros ao norte de Londrina), antes de se mudar para Londrina, onde a família já morava.
A atividade pastoral do religioso é compartilhada com o magistério, lecionando no Instituto Londrinense de Educação de Surdos (ILES) e no Instituto Estadual de Educação de Londrina (IEEL).
Além do microfone, o padre valoriza a importância da música e até da dança para ampliar a pregração. ''Porém, o que faço é só anunciar Jesus e não uso uma linguagem exclusiva para jovens porque, naturalmente, eles têm sede de Deus. Não é necessário, eu me tornar jovem para evangelizar os jovens ou agir como se fosse um deles. A proposta está no Evangelho, que é antigo e sempre novo, ao mesmo tempo. Jesus contemplou a todos, mostrando um reino pautado no amor e, por isso, atinge a todos. Eu não preciso ser pop. Embora dance nas celebrações e participe dos eventos da juventude, em nenhum momento preciso mudar a minha maneira de ser'', compara o religioso.
Para Delci, a radicalidade do Evangelho é uma camisa que muitos jovens querem vestir, mas as congregações religiosas precisam descobrir uma maneira de exibi-la melhor na vitrine, atraindo novas vocações. Ele aponta a necessidade de uma reestruturação na maneira de apresentar o trabalho, a missão e o ideal das congregações para despertar o interesse dos jovens.
O próprio padre afirma que foi alvo de uma propaganda eficaz, que fez um professor de História se tornar um pescador em águas mais profundas. ''Digo que sou fruto de uma catequese que funcionou. Sempre participei da Igreja, mas também tinha o sonho de me casar, ter dois filhos e um fusca na garagem. Houve um chamado aos 15 anos, quando me disseram que poderia ser padre, mas respondi: ''Olha a minha namorada aí do lado''.
O padre teve três namoradas antes de aceitar a vocação. ''Queria ser professor para buscar a verdade das coisas, conquistar mais amigos e poder ficar perto da minha família. Depois de começar a faculdade, senti que precisava de algo mais, porém, o meu sonho ainda era aquele da minha infância. Fui conversar com um padre, chamado Salvador, que me convidou para assistir uma missa com os surdos, o que me desmontou. Dizia que não queria isso para mim. Tenho os meus sonhos'', questionava o religioso.
Delci é um dos poucos padres negros, o que evidencia uma das consequências históricas, que fazem com que esse grupo da sociedade também não tenha acesso à universidade. ''Até 1900, os negros não eram aceitos nas congregações no Brasil. Hoje ainda tem essa defasagem, tendo poucos padres negros. Até a faculdade sempre enfrentei preconceito. As pessoas diziam: 'Esse negrinho está achando que pode'. Sempre ouvi isso, mas nunca abaixei a cabeça, dizendo que ia mostrar quem eu sou, que vim de uma família de roceiros, chegando a universidade à custa de enxada. As pessoas na verdade não são boazinhas. Sempre lutei contra isso e vou ter de ser o melhor para vencer o preconceito. Quando chego, por exemplo, num lugar para celebrar e as pessoas não me conhecem, cumprimento todo mundo e tem gente que nem responde. Depois, quando sabem que sou o padre, pedem para beijar a minha mão'', conclui Delci.
SERVIÇO:
Programa ''Mãos que Evangelizam'', transmitido pela TV Canção Nova (TV cabo pelo canal 54), sextas-feiras, às 16 horas, e em horários alternativos na programação.


