A letra da famosa canção interpretada por Alcione, ‘‘Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar’’, traduz bem os últimos anos do carnaval de Curitiba. As escolas travam uma batalha contra o tempo, pouco dinheiro, pouco incentivo, pouca valorização. Sem dramatizar ainda mais a situação. Acompanhando os preparativos nos barracões não se encontra nada supérfluo, nem mesmo uma construção terminada. É tudo feito no improviso, nos fundos da casa de um membro da escola, com ajuda da família, com a boa vontade dos vizinhos, somando forças, depositando esperanças, alimentando sonhos.
  Fazer carnaval em Curitiba é uma luta de resistência, uma demonstração de amor pela festa popular que não querem ver acabar. ‘‘A verba da Prefeitura foi liberada sexta-feira passada. Então tivemos que reciclar fantasias do ano passado. Temos uma ala que vamos falar sobre a poluição que terá todas as fantasias feitas de material reciclado, garrafa PET, jornal, papelão, caixinha de leite’’, conta Sônia do Rocio Silva, de 40 anos, uma das diretoras do Grêmio Recreativo Escola de Samba Internautas, de Pinhais.
  A escola é campeã dos últimos dois anos do Grupo B, mas devido a problemas na entrega de documentação, não conseguiu acessar o Grupo A, em 2008. ‘‘Nossa escola vai sair muito linda, nosso enredo é a Fauna e a Flora. Muita gente não valoriza nosso carnaval, mas a gente não deixa de fazer por isso. A emoção e adrenalina que a gente sente na avenida é apaixonante’’, disse Sônia que também compõe a equipe de carnavalescos da Internautas da qual participa a veterana Marlene Montecarmelo.
  Fundada pelo técnico de refrigeração Haroldo Ribeiro, 61 anos, a Internautas ficou quatro anos como bloco até virar escola de samba, em 2005. O barracão para os preparativos foi erguido, tijolo por tijolo, pelo seu Haroldo, nos fundos da casa dele, no bairro de Tarumã Pinhais. Ele também sempre tira as férias no mês de janeiro para se dedicar exclusivamente ao carnaval. Diante do repasse da verba, praticamente às vésperas da festa, seo Haroldo utilizou seu 13º salário, abono de férias e ainda fez um empréstimo para comprar alguns materiais para iniciar a produção das fantasias e carros alegóricos. A escola sai com mais de 260 integrantes.
  ‘‘Entreguei o projeto da escola para a Fundação Cultural dentro das proporções do Grupo A e de última hora nos avisaram que continuamos no Grupo B porque não havia mais prazo. Os R$ 16 mil que nos repassaram acabou ficando muito pouco para todo investimento que fizemos’’, lamenta Haroldo Ribeiro, contando que se apaixonou pelo carnaval, há 20 anos, e que toda a família é envolvida na festa, desde a mãe dele, até esposa, filhos e netos. ‘‘Dá um alívio saber que os jovens estão ocupados aqui dentro e não estão fazendo besteira por aí. O nosso carnaval é uma festa familiar’’, observa ele.

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