Sacar dinheiro em caixa eletrônico, pegar produtos nas prateleiras dos supermercados, tocar uma campainha. Tarefas simples? Para a maioria das pessoas, sim. Mas para alguns que pararam de crescer alguns centímetros antes do padrão, essas e outras atividades exigem um esforço extra. E, às vezes, com a ajuda de terceiros.
  Cientificamente, eles possuem a acondroplasia, que é uma deficiência de crescimento nos ossos longos (de braços e pernas). Mas no dia-a-dia costumam ser chamados de anões. A estatura média dessas pessoas fica entre 90 centímetros e 1,35 metro.
  Os irmãos Zumaria, 41 anos, e Éder Cézar, 45, possuem esse tipo de nanismo. Mas os centímetros a menos não foram empecilho para o sucesso na vida. Com 1,17 metro de altura, Zumaria dá aulas de matemática há 13 anos. Atualmente, ela leciona nas turmas do ensino médio da Escola Estadual Dario Vellozo e também no Instituto dos Cegos. ‘‘O 1º ano é mais difícil, mas essa faixa etária é mais tranqüila que os alunos de 5ªa 8ªsérie’’, afirma. A altura do quadro negro também não prejudica o trabalho. ‘‘Eu subo em um banco porque a disciplina exige o uso do quadro’’, conta.
  Já seu irmão, que tem 1,30 metro, trabalha como arquivista na Unifil. Para se locomover para o trabalho e para outras atividades, Éder vai dirigindo seu próprio carro, que foi adaptado. Zumaria também tirou carteira de motorista. Os dois reclamam da ‘‘descrença’’ das pessoas. ‘‘A princípio elas duvidam da nossa capacidade e a gente tem que lutar muito para mostrar que é capaz’’, aponta Éder. E Zumaria acrescenta: ‘‘Você é testado 24 horas por dia’’.
  Há outra reclamação unânime entre os irmãos: comprar sapatos. ‘‘O pé sempre fica no intermediário’’, explica Éder. Na verdade, Zumaria explica que ele é pequeno porém mais largo que um pé do mesmo tamanho. ‘‘Quando você acha um, dá vontade de trazer a loja toda’’, brinca Éder. As roupas também precisam ser adaptadas. As pernas das calças são cortadas e até blusas e camisas passam por ajustes. ‘‘Com essa moda de roupas mais curtas ficou mais fácil’’, observa Zumaria.
  Entre as histórias, há recordações curiosas. ‘‘Toda vez que ia fazer o exame biométrico todo mundo falava que tinha crescido três, quatro centímetros, e eu falava: ‘cresci meio’’’, lembra entre risos Zumaria. Éder assume que, quando pequeno, era um pouco ‘‘esquentado’’. ‘‘Se vinha algum colega me chamar de anão eu partia para a briga’’, conta. Eles acreditam que exista um preconceito, ainda que disfarçado, em relação aos anões. ‘‘O diferente é um problema sério’’, ironiza Zumaria.
  Hoje em dia, os irmãos dividem o tempo entre o trabalho e as atividades que mais gostam. Zumaria freqüenta a igreja e Éder confessa que é doido por uma bola. ‘‘Se deixar eu jogo de manhã, de tarde e de noite’’, afirma.
  Lucas Hernandes, 29 anos, é outro exemplo bem sucedido. Formado em biologia, ele mora com os pais e o irmão mais novo, Bruno, de 16 anos. Em sua casa, nada é adaptado para seu tamanho, 1,23 metro. Apenas o espelho fica um pouco mais baixo. ‘‘Na cozinha tem um banquinho que eu uso para ajudar nas tarefas, como lavar a louça’’, destaca Lucas. Ele conta que nas ruas as crianças costumam chegar perto e olhar bastante. ‘‘Atiça a curiosidade delas’’, explica.
  Entre as discriminações que já sofreu, Lucas lembra da dificuldade para entrar na escola. ‘‘A diretora me obrigou a fazer um teste de inteligência, que apontou que eu era normal, mas com essa enrolação eu perdi um ano’’, disse. Para quem duvidava da capacidade, Lucas mostrou com ações. Passou no vestibular na primeira tentativa e, segundo Bruno, sem nem ao menos estudar. Além disso, ele foi aprovado em outros dois concursos.
  Lucas adora ler, hábito que adquiriu ainda durante a infância. ‘‘Quando eu era criança não gostava dessa coisa de ficar me chamando de ‘anãozinho’ e por isso ficava isolado em casa.
Hoje está bem melhor’’, observa. Ele conta que freqüenta o grupo de jovens da igreja Dom Bosco. ‘‘É um ótimo círculo de amizade e também tenho prazer em servir’’, diz.
  Dirigir um carro ainda não faz parte da rotina de Lucas, mas com a bicicleta ele vai onde quer. ‘‘Sou conhecido em todo lugar que vou’’, brinca. A altura já rendeu trabalhos artísticos, como uma peça publicitária feita em Arapongas e também atuar junto com o Papai Noel no fim do ano. Mas segundo ele, esses trabalhos não dão um bom retorno financeiro. O que ele quer mesmo é encontrar um bom emprego.

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