Curitiba - Quando comecei a viagem de Curitiba rumo ao Litoral, saí com a empolgação normal de quem faz mais uma viagem. Tudo bem, eu sabia que encontraria praias limpas e muita natureza intocável, mas estava longe de concordar com a opinião do Mauro (Frasson), fotógrafo do jornal em Curitiba: ''O Litoral do Paraná é o mais bonito de todo País'', foi o que ele disse assim que descemos do barco que nos levou de Paranaguá a Guaraqueçaba, pequeno lugarejo no Litoral Norte do Estado. Para mim, era impossível imaginar qualquer comparação com as praias azuis do Nordeste ou o Litoral verde e recortado catarinense.
Depois de visitar a Reserva Natural do Salto Morato, mergulhar na piscina natural que se forma ao longo do rio Morato depois da queda d'água, caminhar pelos quatro quilômetros de trilha em meio à Mata Atlântica na ilha de Superagui, sentir-se minúscula parada em um ponto dos 38 quilômetros da Praia Deserta, também em Superagui, sentar na areia da vila de pescadores na Ilha das Peças e assistir ao balé de centenas de botos que vivem ali, confesso que nem lembrava mais da cor acinzentada do mar no Paraná. O que eu via na minha frente era de uma beleza sem fim, um lugar a se preservar, a todo custo.
''Gosto mais do Litoral daqui do que do Nordeste. Mar sem verde em volta não tem graça'', dizia a turista paulista Sheila Facchini, em férias na Ilha de Superagui. Ela conta que desde 1986 frequenta a região do Litoral mais ligada à Mata Atlântica, da Ilha de Cananéia, em São Paulo, à Ilha do Mel, no Paraná.
Os estrangeiros já sentiram essa situação há tempos. ''Vem gente de tudo quanto é lugar'', conta Augusto Damião Portela, 41 anos. Natural de Irati (135 km ao norte de União da Vitória), há 13 mudou-se para Guaraqueçaba, onde trabalha com o transporte de turistas entre as ilhas. Segundo Herondino de Ramos, 64, natural de Superagui, a maioria dos veranistas vem de Curitiba, São Paulo e Minas Gerais, mas é comum a presença de estrangeiros durante todo o ano.
O engenheiro florestal Paulo Chaves Pinheiro, assistente técnico da Reserva Natural Salto Morato, empolga-se ao falar do lugar, de suas características e da necessidade de preservação. ''Os manguezais são muito importantes para a natureza toda, porque são berçários de todas as vidas do mar'', diz.
A esperança de que isso realmente aconteça é o fato de que a região conta com garantias legais de proteção. Todo o município de Guaraqueçaba está incluído nos 311 mil hectares que compõem a Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaraqueçaba. A Reserva Natural do Morato, com 2,3 mil hectares, é mantida pela Fundação O Boticário de Proteção à Natureza.
Superagui e a Ilha das Peças estão sob a proteção do Parque Nacional de Superagui. Criado em 1989, o parque abrange 34 mil hectares, incluindo uma parte do continente, denominada Vila do Rio dos Patos, mais as ilhas do Pinheiro e do Pinheirinho, excluídas as comunidades de pescadores. Todo esse ecossistema da Mata Atlântica, por fim, também é reconhecido, desde 1999, pela Unesco como Sítio do Patrimônio Natural da Humanidade.
Todo esse santuário corre riscos. Alguns problemas enfrentados pela unidade são a retirada de madeira, a caça, os conflitos entre pescadores e índios, a construção de casas de turistas, o corte clandestino de palmito, os desmatamentos e caça de animais silvestres feitos pelos índios que exploram a área do parque.
''O lixo é um problema sério. Não existe coleta. Quem tem pousada ainda leva uma parte para Paranaguá ou Guaraqueçaba, mas a maior parte fica aqui mesmo. Quando a maré sobe, o lixo vai todo para o mar'', preocupa-se Denise Correia de Ramos, 33, de Superagui, que juntamente com o marido, conhecido como ''Carioca'', tem a Pousada Sobre as Ondas. Em Guaraqueçaba, no entanto, o lixo também é armazenado em uma área aberta, próximo ao mar.

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