Enquanto Atlético, Coritiba e Federação Paranaense de Futebol divergem sobre qual estádio paranaense acolherá jogos da Copa do Mundo de 2014, milhares de moradores de Curitiba sonham com a possibilidade de ver na cidade partidas do torneio de futebol mais importante do planeta. Outros, entretanto, podem bater no peito e dizer que já testemunharam um jogo de Copa na capital do Paraná.
  Na Copa de 1950, única oportunidade em que o Brasil sediou o Mundial, o estádio Durival de Brito, hoje propriedade do Paraná Clube, recebeu duas partidas da primeira fase do campeonato: Espanha 3 x 1 Estados Unidos, no dia 25 de junho, e Suécia 2 x 2 Paraguai, no dia 29.
  O estádio da Vila Capanema foi escolhido porque era o melhor do Paraná à época. ‘‘A diferença do Durival de Brito é que o Ferroviário (então proprietário do estádio e um dos times que deram origem ao Paraná Clube) era sustentado pela Rede Ferroviária. Inclusive os funcionários eram quase coagidos a colaborar com o time’’, diz o jornalista Luiz Geraldo Mazza, que viu as duas partidas da Copa em Curitiba.
  Ele tinha 19 anos e era estudante de Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR). ‘‘Eu vi os jogos de cima do trem, atrás do estádio. Umas 150 pessoas ficavam sobre os vagões. Era uma área de manobra da Rede Ferroviária e uma das crueldades que faziam com os supostos penetras era acionar a composição. Aí a gente tinha que saltar’’, recorda Mazza.
  O ex-jogador Barbosinha, de 84 anos, era centroavante do Água Verde em 1950 e pagou ingresso para ver os dois jogos. ‘‘As entradas eram caras. Havia muita gente de fora, de outras regiões do Estado’’, lembra.
  Mazza aponta que, das seleções que jogaram em Curitiba, o Paraguai tinha mais torcida. ‘‘Temos uma colônia espanhola em número razoável, poucos suecos. Havia muitos pró-americanos. O Brasil era muito colonizado, não só pela indústria cultural, mas também devido às circunstâncias da guerra, que tinha recém acabado. Mas quem levava vantagem era o Paraguai, não só pela proximidade com o Brasil. Havia muita gente de lá estudando na UFPR. Eu tive vários colegas paraguaios. E havia órfãos da Guerra do Chaco que o (ex-governador) Manoel Ribas trouxe para cá e que se incorporaram à sociedade.’’
  O jornalista Vinícius Coelho, que, aos oito anos de idade, viu com o pai Suécia 2 x 2 Paraguai da chamada Reta do Relógio, concorda que os paraguaios tinham mais entusiastas. ‘‘A torcida estava a favor do Paraguai’’, afirma. Ainda assim, segundo os números oficiais, o jogo entre Espanha e Estados Unidos atraiu mais público: cerca de 10 mil pessoas, contra aproximadamente 8 mil na outra partida.
  Mazza, Barbosinha e Coelho se recordam da dinâmica das partidas: jogos cadenciados, sem a correria do futebol de hoje, e com menos preocupação com a defesa. ‘‘O jogo dos Estados Unidos contra a Espanha foi uma surpresa. Dizia-se que os Estados Unidos não tinham futebol e que a Espanha faria gol a qualquer hora. Mas os americanos venderam caro a derrota e endureceram no primeiro tempo. A Espanha só se recuperou no segundo tempo. Aí, deu um banho de bola e virou o jogo’’, lembra Barbosinha.
  ‘‘Eu me recordo de que havia dois bons jogadores na Suécia, o Palmer e o Skoglund. O Paraguai tinha aquela coisa de sangue, de luta. Tanto que o jogo estava 2 a 0 para os suecos e os paraguaios conseguiram empatar. Foi um jogo bonito, sem deslealdade’’, comenta Coelho.
  O jornalista aponta que, apesar do envolvimento de grande parte da comunidade com os jogos da Copa, o Mundial não tinha nem de longe a importância de hoje. ‘‘Não havia tanta repercussão. Para se ter uma idéia, o Campeonato Paranaense não parou durante a Copa. Quando o Brasil perdeu a final para o Uruguai, não houve nenhuma diferença na rotina de Curitiba. Aliás, no dia da final, o Coritiba jogou em Jacarezinho contra o time local e era muito difícil ganhar lá. Pois o Coxa venceu e no dia seguinte os jornais deram mais destaque a isso do que à derrota brasileira.’’
  Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1950 a população de Curitiba era de 180.067 habitantes. Era uma cidade ainda distante da metrópole que seria desenhada a partir das mudanças urbanas iniciadas nas décadas de 60 e 70, e as dificuldades de intercâmbio na época deixavam a capital paranaense nacionalmente em segundo plano. Situação que se refletia no futebol.
  ‘‘Havia muito fascínio pelo futebol de São Paulo e do Rio de Janeiro. Era normal as pessoas daqui torcerem para os times de lá, principalmente para as equipes cariocas. Era raro jogadores de clubes paranaenses serem convocados para a Seleção Brasileira, apesar de alguns terem condições técnicas. Não havia lobby em prol do Paraná e não havia esse olhar para o interior. Para o jogador se afirmar, tinha que ir para os clubes do Rio e de São Paulo’’, diz Mazza.
  ‘‘Existia o bairrismo do eixo Rio-São Paulo. Para entrar ali não era fácil. O Nordeste tinha alguma coisinha, os gaúchos também, mas de resto o futebol de outros estados não tinha projeção’’, concorda Barbosinha.
  Da Copa de 50, ficaram as recordações de um período em que o futebol era mais ingênuo, precário, sem caderno de encargos. E provavelmente mais alegre também. ‘‘Jogava-se e deixava-se jogar. Tanto que saíam muitos gols. O treinador e os jogadores ficavam anos nos clubes, não tinha aquela pressão por resultados. Os jogadores eram muito técnicos. Quando você via o Didi (campeão pela Seleção nas Copas de 58 e 62) matar uma bola que vinha pelo alto, era um negócio sério’’, lembra Barbosinha.

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