Na luta pela emancipação feminina
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de março de 2008
Denise Ribeiro<br>Equipe da Folha 
Como todo debate a cerca da questão da igualdade entre pessoas de diferentes sexos, etnias ou classes sociais, é condicionado às relações de poder vigentes em cada momento histórico, também a luta pela emancipação feminina é feita de uma série de disputas em constante transformação. Em Curitiba, os primeiros sinais da disseminação de idéias feministas datam do período entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX, quando o tema ganha espaço no Brasil.
De acordo com a autora do livro Pedidos e recusas: mulheres, espaço público e cidadania, Cynthia Roncaglio, as idéias feministas chegaram a Curitiba sobretudo com o fluxo migratório da Europa para o Brasil, quando são espalhadas doutrinas e idéias antes restritas a pequenos grupos de intelectuais que insuflam os ideais feministas. O acesso da elite econômica e cultural por meio de viagens e correspondência com estrangeiros também favoreceu a disseminação desses ideais.
Mas esse debate por aqui ocorreu de forma sutil, avalia Cynthia. Procurava conciliar a imagem da mãe-esposa, dedicada ao lar, com a imagem da mulher emancipada juridicamente, defensora da pátria e responsável pela formação dos cidadãos brasileiros, explica. A pesquisadora aponta que o espaço mais visível do debate era a imprensa, na qual as mulheres letradas expunham com veemência os seus argumentos a favor dos direitos civis e políticos de todas as mulheres.
As reivindicações das curitibanas eram as mesmas das mulheres do restante do Brasil e do mundo: direito à alfabetização e aos diversos níveis de formação educacional, ao desenvolvimento de diversas carreiras profissionais (inclusive aquelas consideradas impróprias para mulheres como as ligadas ao Direito, à Medicina e Engenharia) e direito ao voto. Enfim, reivindicavam exercer a cidadania em suas múltiplas faces. As manifestações em geral, restringiam-se às reuniões, palestras e encontros em associações e agremiações. Não consta no período que analisei (1890-1934) a organização de passeatas ou eventos similares, explica Cynthia.
No início do século, por exemplo, contra o catolicismo e atraídas pelo ideário da modernidade propagado pela República, fundaram grêmios e associações como os das Livre-Pensadoras (associação feminina de caráter artístico-cultural que pregava a democracia e a liberdade de pensamento) e as Filhas de Acácia (ramificação da Acácia Paranaense, de origem maçônica). Dentre as mulheres que defenderam, com ressalvas ou não o movimento de emancipação feminina em Curitiba, pode-se citar especialmente, aquelas que traçaram o caminho da literatura e por isso mesmo tiveram oportunidade de se inserir no espaço público e disseminar os ideais feministas, afirma Cynthia.
Entre elas, a pesquisadora destaca Mariana Coelho, Rachel Prado, Leonor Castellano, que tiveram presença marcante no jornalismo, escrevendo em vários periódicos locais. As escritoras e poetas Annita Phillipoviski, Annete Macedo, Alda Silva, Georgina Mongruel e Pompília Lopes dos Santos. Esta última foi inclusive fundadora e presidente da Academia Feminina Paranaense de Letras, lembra Cynthia.
Embora o feminismo brasileiro tenha sido influenciado pelos movimentos norte-americanos, ingleses e franceses e tenha ocorrido um pouco a reboque deles, algumas conquistas foram obtidas antes. Na França, onde o movimento sufragista foi muito intenso desde o final do século XIX, os direitos políticos foram conquistados somente em 1944, dez anos depois do Brasil. Para a pesquisadora, as mulheres contemporâneas devem a suas antecessoras feministas mais do que imaginam.
Direitos que hoje parecem ter sido adquiridos naturalmente como o acesso à educação, à liberdade de escolher sua profissão, ter voz ativa na política, etc, são direitos que foram conquistados lentamente, mas com muito empenho, dedicação e tinta, afirma Cynthia. Essas mulheres foram muitas vezes ridicularizadas, agredidas, desqualificadas por ter como objetivo viver numa sociedade mais justa e mais democrática não só para algumas mulheres, mas para todas as mulheres. Acreditavam também que as diferenças dos papéis masculinos e femininos não deveriam justificar a desigualdade entre homens e mulheres e a perpetuação da opressão delas.
A data escolhida como Dia Internacional da Mulher, por exemplo, remete a 8 de março de 1857, quando operárias de uma fábrica de tecidos de Nova York morreram carbonizadas dentro da empresa, que foi trancada e incendiada em represália à manifestação delas por melhores condições de trabalho.


