União da Vitória, João Turquino, São Jorge, Marabá, Maracanã, Nossa Senhora da Paz, Novo Amparo.
Os nomes acima estão no vocabulário de pelo menos 48 mil pessoas em Londrina 10% da população do município que vivem em assentamentos, fundos de vale, favelas, ocupações urbanas.
Sem a presença do Estado, estas comunidades criaram códigos, horários e comportamentos próprios, fenômemo admitido e relatado pelos próprios moradores.
Entre ruas de terra, mal-iluminadas e praticamente sem policiamento preventivo, a atitude é mais importante que caráter e o conceito de dignidade é ignorado: ''Na favela é normal moleque morar junto com p... e travesti'', explica um garoto de 18 anos que hoje vive em um mocó no centro da cidade e viveu quase toda a adolescência no Jardim Nossa Senhora da Paz, favela da Zona Oeste.
''Eu mesmo morei em uma casa assim com 13, 14 anos, era uma vida muito louca'', lembra o rapaz, que hoje ganha a vida como guardador de carros em um point da cidade. ''Saí de lá porque tava queimado para vender bagulho. Tava muito manjado pela polícia e decidi cair fora e passar a assaltar'', relata.
''O mundo do crime e a vida honesta convivem lado a lado na favela. Um lado respeita o outro. Se não respeitar, se dá mal'', conta um jovem do União da Vitória que já passou pelos dois lados.
''Quem tá no movimento (crime) expulsa quem tá zoando com os moradores da vila. O cara perde até a casa'', diz o jovem. ''O cara que não tá no movimento e cagueta o esquema pra polícia, se não fugir, morre. E ninguém lamenta'', conta A.C.S, de 18 anos, hoje um trabalhador em busca de paz, de vencer o vício do crack e de esquecer as dezenas de roubos à mão armada do seu currículo. ''Tem espaço até para o jurão, aquele cara que não sabe nem onde são as boca. Ele também leva a vida dele e se não vacilar, o movimento ignora''.
''Todas as favelas de Londrina têm traficante e trabalhador. Todas. Em todas tem gente boa e gente ruim dos dois lados'', garante o guardador de carro que perambulou pela cidade boa parte de sua vida.
Para os que conhecem bem a cara e a coroa da moeda, a explicação para essa coexistência pacífica é simples: os traficantes não são tão recriminados porque as pessoas conhecem as dificuldades de se ganhar a vida honestamente; e os trabalhadores não são reprimidos pois os traficantes reconhecem que as pessoas não podem ser obrigadas a viver em constante risco.

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