Quando a luz do sol começa a rarear, Porto Príncipe vai aos poucos mergulhando num breu assustador. A capital já não contava com a distribuição regular de energia, depois do terremoto tudo piorou. Só há luz onde existem geradores à gasolina ou diesel.
Nos bairros pobres e arrasados pelo sismo a escuridão só é rompida pela escassa luz de velas. As ruas são tomadas por barracas. Mesmo as casas que resistiram ao tremor continuam desabitadas. O medo de um novo terremoto transformou as vielas nos lugares mais seguros. Quem não tem barraca, colchão ou mesmo travesseiro, dorme no chão entre pilhas de escombros. Desprotegidos e desabrigados, cercados de lixo e esgoto, os habitantes das zonas mais pobres vão se tornando alvo fácil para a malária que avança mortal e silenciosamente.
Apesar das estimativas darem conta que existam mais de 50 mil corpos ainda sob os escombros, o cheiro de morte não é mais sentido. Uma poeira densa e o cheiro de lixo completam a paisagem lúgubre. Mas não há choro, gritos, nem desespero. As crianças continuam brincando, uma senhora prepara uma massa, aproveita a luz das brasas para não errar as medidas.
Em meio à escuridão, os soldados brasileiros criaram um novo método de distribuir comida sem causar tumulto ou violência. Conhecedores das comunidades onde atuam, sabem os locais onde a necessidade é mais urgente. No meio da noite, entram nos acampamentos, vão acordando os moradores e entregando cestas básicas. Assim não há tempo para formar as perigosas aglomerações. As operações, batizadas de ''Papai Noel'', se mostraram eficientes e começam a ser adotadas pelos militares de outros países. (S.R.)

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