Na era do e-mail, enviar cartas ainda é tradição
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domingo, 14 de dezembro de 2008
Fernanda Aranda<br>Agência Estado 
São Paulo - Cada vez que Dudu, de três anos, pisca, uma declaração de amor, um pedido de desculpa ou um desabafo de saudade é feito no Brasil. A velocidade é típica de e-mail, mas não é no mundo virtual que as informações são repassadas. Mesmo na era da internet, o número de cartas enviadas continua o mesmo, sem ser atropelado pelos ''@.com.br''. Só este ano, até setembro, foram 237.558.000, média de 86.700 por dia, 3.612 por hora ou uma por segundo, marca que se repete desde 1997.
Até o pequeno Eduardo Gonçalves já está entre esses tantos algarismos. Mesmo nascido em tempos onde microcomputador já é coisa do passado, ele acaba de receber uma correspondência do colega Murilo, da mesma idade. Também já trocaram envelopes Maria Eduarda, Mariana, Rodrigo, Clara, Carolina. Todos eles, com só três aniversários completos, ocuparam o posto de ''destinatário'' ou ''remetente'', função que começou com uma lição da escola e virou sucesso entre a meninada. As mensagens trocadas pelas crianças foram apenas desenhos, mas segundo seus relatos e sorrisos, já proporcionaram o que as folhas escritas costumam causar em gente grande.
''A carta hoje tem um papel de trocar sentimentos. Diferentemente do passado, quando a função era basicamente informativa, pois tratava-se de um dos poucos meios de comunicação'', afirma Pedro de Almeida Feijó, chefe do Departamento de Vendas dos Correios. Na última década, todo ano, as correspondências de pessoa física para pessoa física (não entram na conta malas diretas, pagamentos, etc), representam 10% dos 3,5 bilhões de postagens de todos os tipos enviadas.
Foi em uma dessas viagens que uma folha de caderno foi parar nas mãos de Ana Maria Urias da Silva, de 46 anos. A carta trouxe notícias de Votuporanga, no interior de São Paulo, após quase dois anos de silêncio. ''Era o pedido de perdão da minha filha. Tivemos uma briga feia e paramos de nos falar. Por carta, ela disse que sentia minha falta. O coração amoleceu'', conta.
O pedido de desculpas só aconteceu graças a um terceiro personagem. Ana Maria mora no bairro Marsilac, extremo da Zona Sul de São Paulo, onde não há CEP. Região de manancial e de ocupação irregular, as ruas não são oficiais. A correspondência só chega aos dois mil moradores do local com a ajuda, voluntária, de Maria Lúcia Cirillo. ''Em 2002, fiz parceria com os Correios. Ofereci a minha lojinha e todas as correspondências são entregues aqui'', conta Lúcia, que cobra taxa de manutenção de R$ 1 ao mês por morador.
Na Lapa, Zona Oeste, trabalha Nelson Rosa Dias, de 52 anos, 32 no posto de carteiro, um dos mais experientes entre os 47 mil do País. É com muito protetor solar, tênis com solado especial e uma bolsa carregada de 1,3 mil correspondências que ele percorre 13 km diariamente. Todo dia ganha um copo de suco de uma moradora da região e é recebido com festa por Meg, a cadela labrador que pega as correspondências.
Ainda que não tragam boas novas, as cartas marcam de alguma forma. A história do Brasil não seria a mesma sem a escrita de Pero Vaz de Caminha a dom Manuel em Portugal. E Getúlio Vargas, em 1954, deixou o seu registro antes do suicídio para ''entrar na história''. (Colaborou Marcela Spinosa)


