MÚSICA GLOBAL
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
Esta semana, o mundo ficou um pouco mais multicultural: Barack Obama, o negro Barack Obama, descendente de quenianos da periférica África, assumiu a presidência dos Estados Unidos, o País mais poderoso do globo. O fato fez com que uma onda de otismismo e esperança se espalhasse por todos os outros povos. Com Obama, o quase africano Obama, as pessoas acreditam que o mundo pode ser um pouco melhor.
Também esta semana, na periferia que é o Brasil, começou na Rede Globo de Televisão, o canal mais poderoso do País, uma nova novela, tendo como pano de fundo para as tramas de amor e intriga a Índia, com seus costumes, sua cultura, suas castas, seu povo, sua música. A tendência, como acontece a cada novo folhetim, é que os hábitos indianos mostrados na novela se espalhem pelo Brasil durante sua exibição, seja em expressões, nas vestes ou na dança.
Nos dois casos, fica evidente a abertura para o diferente, o alheio, o estrangeiro e da vontade de conhecer e experimentar coisas novas. Toda esta conversa é para dizer que também em Curitiba, cidade conhecida por ser avessa a inovações, ganhou pela primeira vez este ano, acoplada à 27 Oficina de Música de Curitiba, uma Oficina de Música Étnica Contemporânea.
Desde o último dia 17, um grande leque de ritmos, sons e instrumentos de várias partes do mundo estão sendo apresentados no Memorial de Curitiba, na Praça Iguaçu, no Largo da Ordem. Músicas dos confins do mundo, que não tocam em rádio, que não é discutida pela crítica ou que muitas vezes não é nem lembrada pelo público.
A procura pela oficina, no entanto, mostrou o interesse das pessoas pela diversidade sonora. Num dia, espetáculo de Katputli, as tradicinais marionetes indianas; noutro, minyo, música folclórica japonesa, tocada por instrumentos como o shamisen (instrumento composto por três cordas), o fuê (flauta tranversal de bambu) e o shakuhachi (flauta vertical de bambu ou madeira).
Não para por aí. Shows e oficinas de tambor africano, cajón peruano e pandeiro brasileiro, de música clássica e popular indiana, celta, francesa, ameríndia e guarani, além de ritmos tradicionais do Brasil. Juntar em um mesmo espaço tradições tão diversas foi o ponto de partida para a criação da Oficina Étnica, que, embora aconteça atrelada à 27 Oficina de Música de Curitiba, é financiada pelo fundo municipal de cultura. ''A Oficina de Música Étnica é um festival independente que, depois de muita conversa, acabou virando uma parceria com a Oficina de Música de Curitiba'', explica Vadeco, idealizador do projeto.
Posto em prática este ano, a ideia de Vadeco de criar um festival reunindo a música do mundo é antiga. Nesse meio tempo - e durante a própria oficina - Vadeco conta que a grande discussão que permeou palestras e cursos foi justamente a de responder a pergunta: o que é música étnica? Para uns é a música ligada à tradição de determinado povo, para outros é a música folclórica dos países. ''Durante a oficina vimos que o conceito de música étnica é mutável. Essa discussão é muito importante'', acredita Vadeco.
Durante a feira da música universal, a procura do público pelas atividades e shows foi além da expectativa da organização. Para Vadeco, isso tem a ver com a globalização, que faz com que a música popular fique cada vez mais homogeneizada. Ele exemplifica sua afirmação lembrando que a música pop é parecida em qualquer lugar, independente de onde ou por quem seja criada. Na opinião do organizador, o público acaba sentindo falta de coisas diferentes. ''Teve gente que viu uma gaita de fole ou cítara pela primeira vez e se encantou'', conta.
Com a boa recepção, Vadeco acredita que a Oficina de Música Étnica Contemporânea cumpriu seu papel, que era o de mostrar a públicos diferentes um tipo de música que não está inserida no mercado. ''Nosso público tem sido muito diversificado, indo desde senhores até pessoas muito jovens. Isso prova a condição do mercado para esse tipo de música'', diz Vadeco, enquanto de dentro da sala de concertos acordes da música celta começam a soar pelo Memorial de Curitiba.
Na semana em que mundo ganhou um líder negro de origem queniana e o Brasil deve começar a absorver hábitos indianos, Curitiba também ficou um pouco mais multicultural. Ano que vem tem mais.


