‘O Estado do Paraná já foi o rei do café, sua linda Curitiba é a rainha das ‘mulher’’’, cantam Profeta e Fariseu, uma das duplas caipiras que marcam presença no ‘‘Canja da Viola’’. Há 23 anos, o projeto apresenta música sertaneja de raiz no Centro Histórico da cidade. O palco atual é o Teatro Universitário de Curitiba, o TUC, na Galeria Júlio Moreira, embaixo da Travessa Nestor de Castro.
  O espaço, para 96 pessoas, abre as portas para o público às 15 horas. Pouco antes, chegam as duplas. As inscrições são gratuitas, dão direito a cantar duas músicas e não passam por uma seleção. ‘‘Tem algumas coisas que são ‘ouvíveis’, outras não’’, comenta Elizeu de Souza, 39, sonoplasta da Fundação Cultural de Curitiba há 19 anos, e ‘‘coordenador extra-oficial’’ da Canja desde 2004, quando o ator Paquito, que viria a falecer no ano seguinte, deixou a organização.
  ‘‘O Canja de Viola é o projeto de maior expressão da música popular na história do Estado’’, exalta Souza. No último domingo, pouco mais de 50 pessoas pagaram R$ 1 para acompanhar os solos e duplas que vão do absoluto desafinado ao melhor da música caipira local. A cada semana, uma conjunto é convidado especial e recebe o cachê simbólico de R$ 50.
  No último domingo, foi a vez de Valtecir e Americano, uma das duplas citadas por Souza como as de expressão que surgiram ou que já tocaram muito na canja. Neste hall, ele ainda coloca Nascimento e Zelone, Horizonte e Beira-mar além de Guatupê e Guaratuba, todas sertanejamente curitibanas. Alguns, que já têm disco gravado, optam por usar playback. O equipamento de luz e som, do teatro recém-reformado, custou R$ 97 mil. ‘‘Os microfones são bons. Os para bateria são os mesmos utilizados pelos Rolling Stones.’’
  Itararé é um dos que não utiliza toda a tecnologia à disposição e prefere dublar suas músicas. De batismo, Elizeu de Melo, ele já teve dupla, mas hoje toca sozinho. Aos seis – hoje tem 60 –, aprendeu a tocar cavaquinho em Japira, sua cidade natal. ‘‘Onde canta o sertanejo’’ é o quarto CD que grava por conta. Itararé cobra de R$ 15 a R$ 20 por unidade, dependendo do lugar. ‘‘Mas Curitiba não é bom não para a música caipira. É forte em São Paulo e Mato Grosso’’, opina. Ele não vê a música como ganha-pão. ‘‘É um treco variado, sabe. Tenho seis profissões: sou pedreiro, carpinteiro, encanador, eletricista, jardineiro e músico.’’
  Auto-didatas
  Elmar da Silva, 54, faz dupla com Edimar e começou no canto aos seis anos e no violão aos nove. Como muitos que tocam na Canja, ele é auto-didata: diz ter aprendido sozinho vendo os outros cantar. A sua dupla começou em 1981 e já está no quinto CD, vendido a R$ 10. ‘‘É muito show em lanchonete, aniversário. Mas ando sonhando e tenho fé que com o próximo disco vamos chegar lá.’’ Por enquanto, o sucesso da televisão ainda não veio, mas o catarinense de Lages conta com orgulho que, hoje, vive só da música.
  No último domingo, ele dublou, sem a companhia de Edimar, a música ‘‘Só mulher’’, de autoria própria. ‘‘Tem tantas mulheres que querem ser a minha mulher’’, canta junto, da platéia, Mariazinha. Apresentada como a segunda mãe do canja – o apresentador não explicou quem é a primeira –, ela é das mais animadas. Canta e bate o pé.
  Na hora de cantar, Maria Matilde da Silva, 68, faz dupla com Onofre há 10 anos. Viúva há 17 anos, ela conta que a música caipira mudou sua vida. ‘‘Ficava em casa chorando e chorando. Até que uma amiga me convidou para um bailão. Desde então, não saiu mais uma lágrima.’’ Da dança para o Canja foi um pulo. Ao cantar, ela contagia o público.
  Nem todos, porém, são afinados. Um deles canta ‘‘O seu sofrimento não faz eu sofrer também.’’ Neste caso, é mesmo o público quem sofre. Outros, encantam pelo carisma. Profeta e Fariseu, juntos há um ano, levam jeito de popstar. Suas letras, cantam sobre o Paraná e suas histórias.
  José Venâncio Sobrinho, 65, nasceu em Cafelândia, interior de São Paulo, e toca desde os dez, época em que teve a dupla ‘‘Nalia e Zezinho’’, com sua mãe. ‘‘Éramos o ‘Zico e Zeca’ de Cafelândia’’, explica. A sugestão do nome artístico ‘Profeta’ veio de Zelone (que tem dupla com Nascimento). ‘‘Foi em 1976 e eu tinha uma baita barba.’’ O Fariseu original se foi há 10 anos. A nova dupla, depois de passagens por TV’s e rádios, almeja o sucesso.
  Para Profeta, foi-se o tempo que Curitiba tinha preconceito da música caipira. Recorda de uma passagem nos anos 1970 quando um grupo de rapazes tirou sarro. ‘‘Onde vai ser o baile tio?’’, ele não teve dúvidas quanto à resposta. ‘‘Na casa do teu pai, seu FDP’’, lembra, orgulhoso. ‘‘Primeiro o pessoal variava, uns gostavam e outros não. Hoje, dá para tocar no jardim: Curitiba gosta da música sertaneja de raiz.’’ Ou, como conta o Fariseu Carlos Luiz Carvalho, 54. ‘‘Quando saímos pela rua, o pessoal pede para a gente tocar.’’
  Ficamos por aqui com mais um pouco de ‘‘A viagem’’, de Profeta e Fariseu. ‘‘Quitandinha e Irati, Araucária e Contenda, na Fazenda Rio Grande conheci linda morena. Em São José dos Pinhais, eu parei para descansar. Piraquara e Pinhais, Colombo fui visitar. Depois visitei as praias e a linda Paranaguá.’’

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