Música caipira no Centro Histórico
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terça-feira, 30 de setembro de 2008
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
O Estado do Paraná já foi o rei do café, sua linda Curitiba é a rainha das mulher, cantam Profeta e Fariseu, uma das duplas caipiras que marcam presença no Canja da Viola. Há 23 anos, o projeto apresenta música sertaneja de raiz no Centro Histórico da cidade. O palco atual é o Teatro Universitário de Curitiba, o TUC, na Galeria Júlio Moreira, embaixo da Travessa Nestor de Castro.
O espaço, para 96 pessoas, abre as portas para o público às 15 horas. Pouco antes, chegam as duplas. As inscrições são gratuitas, dão direito a cantar duas músicas e não passam por uma seleção. Tem algumas coisas que são ouvíveis, outras não, comenta Elizeu de Souza, 39, sonoplasta da Fundação Cultural de Curitiba há 19 anos, e coordenador extra-oficial da Canja desde 2004, quando o ator Paquito, que viria a falecer no ano seguinte, deixou a organização.
O Canja de Viola é o projeto de maior expressão da música popular na história do Estado, exalta Souza. No último domingo, pouco mais de 50 pessoas pagaram R$ 1 para acompanhar os solos e duplas que vão do absoluto desafinado ao melhor da música caipira local. A cada semana, uma conjunto é convidado especial e recebe o cachê simbólico de R$ 50.
No último domingo, foi a vez de Valtecir e Americano, uma das duplas citadas por Souza como as de expressão que surgiram ou que já tocaram muito na canja. Neste hall, ele ainda coloca Nascimento e Zelone, Horizonte e Beira-mar além de Guatupê e Guaratuba, todas sertanejamente curitibanas. Alguns, que já têm disco gravado, optam por usar playback. O equipamento de luz e som, do teatro recém-reformado, custou R$ 97 mil. Os microfones são bons. Os para bateria são os mesmos utilizados pelos Rolling Stones.
Itararé é um dos que não utiliza toda a tecnologia à disposição e prefere dublar suas músicas. De batismo, Elizeu de Melo, ele já teve dupla, mas hoje toca sozinho. Aos seis hoje tem 60 , aprendeu a tocar cavaquinho em Japira, sua cidade natal. Onde canta o sertanejo é o quarto CD que grava por conta. Itararé cobra de R$ 15 a R$ 20 por unidade, dependendo do lugar. Mas Curitiba não é bom não para a música caipira. É forte em São Paulo e Mato Grosso, opina. Ele não vê a música como ganha-pão. É um treco variado, sabe. Tenho seis profissões: sou pedreiro, carpinteiro, encanador, eletricista, jardineiro e músico.
Auto-didatas
Elmar da Silva, 54, faz dupla com Edimar e começou no canto aos seis anos e no violão aos nove. Como muitos que tocam na Canja, ele é auto-didata: diz ter aprendido sozinho vendo os outros cantar. A sua dupla começou em 1981 e já está no quinto CD, vendido a R$ 10. É muito show em lanchonete, aniversário. Mas ando sonhando e tenho fé que com o próximo disco vamos chegar lá. Por enquanto, o sucesso da televisão ainda não veio, mas o catarinense de Lages conta com orgulho que, hoje, vive só da música.
No último domingo, ele dublou, sem a companhia de Edimar, a música Só mulher, de autoria própria. Tem tantas mulheres que querem ser a minha mulher, canta junto, da platéia, Mariazinha. Apresentada como a segunda mãe do canja o apresentador não explicou quem é a primeira , ela é das mais animadas. Canta e bate o pé.
Na hora de cantar, Maria Matilde da Silva, 68, faz dupla com Onofre há 10 anos. Viúva há 17 anos, ela conta que a música caipira mudou sua vida. Ficava em casa chorando e chorando. Até que uma amiga me convidou para um bailão. Desde então, não saiu mais uma lágrima. Da dança para o Canja foi um pulo. Ao cantar, ela contagia o público.
Nem todos, porém, são afinados. Um deles canta O seu sofrimento não faz eu sofrer também. Neste caso, é mesmo o público quem sofre. Outros, encantam pelo carisma. Profeta e Fariseu, juntos há um ano, levam jeito de popstar. Suas letras, cantam sobre o Paraná e suas histórias.
José Venâncio Sobrinho, 65, nasceu em Cafelândia, interior de São Paulo, e toca desde os dez, época em que teve a dupla Nalia e Zezinho, com sua mãe. Éramos o Zico e Zeca de Cafelândia, explica. A sugestão do nome artístico Profeta veio de Zelone (que tem dupla com Nascimento). Foi em 1976 e eu tinha uma baita barba. O Fariseu original se foi há 10 anos. A nova dupla, depois de passagens por TVs e rádios, almeja o sucesso.
Para Profeta, foi-se o tempo que Curitiba tinha preconceito da música caipira. Recorda de uma passagem nos anos 1970 quando um grupo de rapazes tirou sarro. Onde vai ser o baile tio?, ele não teve dúvidas quanto à resposta. Na casa do teu pai, seu FDP, lembra, orgulhoso. Primeiro o pessoal variava, uns gostavam e outros não. Hoje, dá para tocar no jardim: Curitiba gosta da música sertaneja de raiz. Ou, como conta o Fariseu Carlos Luiz Carvalho, 54. Quando saímos pela rua, o pessoal pede para a gente tocar.
Ficamos por aqui com mais um pouco de A viagem, de Profeta e Fariseu. Quitandinha e Irati, Araucária e Contenda, na Fazenda Rio Grande conheci linda morena. Em São José dos Pinhais, eu parei para descansar. Piraquara e Pinhais, Colombo fui visitar. Depois visitei as praias e a linda Paranaguá.


