Epifanias são momentos em que detalhes há muitos despercebidos despertam no indivíduo um estado de revelação. As madaleines mergulhadas no chá em Proust, uma barata em Clarice Lispector, muitos signos em Joyce. Todos exemplos clássicos de epifania. Uma pintura no meio da rua, debaixo de uma escada, retratando dois velhinhos se beijando, teve semelhante efeitou de descoberta para Rodrigo Apolloni.
Perceber a pintura revelou ao jornalista um mundo novo, que passou influenciar sua vida de tal modo que, hoje, muitas das ações de seu cotidiano se transformaram depois daquele momento. Quando viu o tal retrato (na verdade um estêncil), o olhar do jornalista se abriu para o fenômeno da Street Art, ou arte de rua.
Sem estar presa a muitos conceitos, quase tudo pode ser Street Art, desde que feita em locais públicos e promova "a transformação do espaço urbano", como explica Angelo José da Silva, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ele estuda e registra intervenção de Street Art nos cenários da cidade.
"Em alguns casos, a intervenção é a revitalização espiritual do espaço. Não há revitalização comercial ou material daquele local", comenta. Ainda sobre os conceitos de Street Art, Silva diz que não tem interesse se um adesivo colado em uma placa é arte. "Do ponto de vista da crítica especializada, não consideram arte", afirma. Os mais importante, no entanto, é como esse adeviso mexe com o transeunte.
Já para Rodrigo Apolloni, que desenvolve um trabalho de doutorado sobre o tema na área de Sociologia, a arte de rua acontece em locais perdidos das cidades, pontos onde há grande concentração e fluxo populacional, mas, ainda assim, ninguém presta a atenção no espaço em que se circula. Para ele, uma intervenção dessas humaniza a cidade e devolve o local ao olhar. "Street Art só é vista quando se está muito atento ou muito distraído", crava o jornalista, citando-se como exemplo.
Era um dia qualquer de 2004, quando ele se deu conta do estêncil debaixo da escada. Depois disso, a cada caminhada pelas ruas ele percebia que cada vez mais pontos de Curitiba recebia intervenções. Desde o início de 2007, Rodrigo sai de casa com uma câmera fotográfica registrando periodicamente a intervenção de artistas (ou não) nos espaços públicos.
O hábito resultou em um blog (www.plasticourbano.blogspot.com), onde publica com grande frequência suas descobertas. A Street Art deu também o tema para seu trabalho de doutorado em sociologia, no qual visa mapear em Curitiba o fenômeno de expressão em muros, casas fechadas, caixas de telefone e energia elétrica, postes, placas de trânsito. Além disso, o trabalho tem a intenção de examinar as motivações de quem se envereda por estes caminhos. "Via de regra, quem faz Street Art são pessoas já envolvidas com artes", acredita. "As pessoas que fazem intervenções são de classe média, mas há também gente da periferia", completa o professor da UFPR.
Atualmente, Apolloni teve de criar um segundo blog para postar as imagens, pois a capacidade do primeiro se esgotou. Neste pouco mais de um ano e meio, ele já capturou mais de 4 mil imagens. Entre esse montante, os temas são os mais variados, criados com as intenções mais distintas. "Às vezes é difícil saber o que a pessoa quer dizer com aquilo. A falta de sentido acaba trazendo um sentido oculto. Mas há sempre uma construção do significado por parte de observador. Quem dá sentido à imagem é quem vê", diz Apolloni.
Ele revela que entre os temas mais comuns estão ligados a um certo engajamento, mas não o engajamento político clássico e partidário. O comprometimento da arte urbana de nossos dias tem a ver com minorias: homossexualismo radical feminimo, grupos contra motorização, pregação do vegetarianismo, entre outros. Por outro lado, há também a tentativa de humanização da cidade.
Por fim, há constatação de que a Street Art é passageira (no sentido de obras isoladas, não o "movimento" no geral). Mesmo com muitos artistas de rua indo parar em museus ou galerias, nas vias públicas a arte de rua não tem valor comercial ou tempo determinado para existir. Seu tempo dura enquanto o dono do imóvel permitir ou o pessoal da limpeza passar.
"Eu sei que é efêmero. Esse tipo de pintura é assim mesmo. Já estou preparado para isso", diz Bernardo Bento, artista que tem a rua como ateliê. "A gratuidade dessa arte, dela estar na rua, serve como uma forma de crítica. Ela é dada de graça para o outro. Mostra como se pode fazer algo bonito e dar para os outros. É como se perguntasse: Qual o valor do olhar?", acredita Rodrigo Apolloni.

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