'MUNISÍTIOS' Na toada do relógio da 'roça'
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de agosto de 2008
Luciano Augusto<br>Reportagem Local 
Oito em cada dez paranaenses habitam as cidades: são urbanóides acostumados às facilidades e às mazelas destas zonas de convergência populacional e que produzem, e reproduzem, o discurso da maioria. Mas há vida fora do habitat urbano. Nos rincões mais pobres do Paraná, muitos municípios têm seus centros de gravidade na Zona Rural, onde reside a maioria dos moradores. Nestes pequenos ''munisítios'', viver é resistir tanto à simplicidade do cotidiano quanto às dificuldades que brotam do esquecimento.
Compilação feita pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), com base no censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísica (IBGE) de 2000, demonstra que a população rural supera a urbana em 117 dos 399 municípios paranaenses. Esta informação, na prática, imprime uma marca particular na rotina de milhares de paranaenses que, ao contrário dos mais de 81% da população do Estado residentes nas cidades, insistem em continuar no campo.
Em três dos municípios mais rurais do Estado - Antônio Olinto, no Sul, e Marquinhos e Porto Barreiro, no sudoeste -, a vida segue a toada do relógio da ''roça''. O despertador é a cantoria do galo, o trabalho começa quando o sol nasce e só termina quando ele se despede do dia. O sono é embalado pelo cansaço de horas a fio lidando com a terra.
Até nas zonas urbanas o ritmo dos ponteiros parece menos acelerado: as lojas fecham para o almoço; no mercado, cavalos e tratores disputam as ruas e vagas com os carros sem estresse; o dono do mercado aceita, sem cerimônia, o porco para pagar a compra.
Nestas localidades, fica fácil perceber por que o Paraná é um dos Estados mais ricos do País: o braço forte do povo que faz a terra produzir.
Mas a riqueza não beneficia a todos. Nos municípios visitados, por exemplo, tanto quem mora na cidade quanto quem vive na zona rural sofre os efeitos nefastos do abandono. Nestas áreas, mais de 90% da população vive em pequenas propriedades rurais e sobrevive da agricultura familiar. Os 10% que moram nas sedes também dependem, direta ou indiretamente, do campo.
A eletricidade já chegou para a maior parte da população, mas outros serviços públicos ainda são para poucos. Nas cidades visitadas, segundo o Ipardes, em 2007, nenhuma residência tinha rede coletora de esgoto e poucas eram as que tinham água tratada em suas torneiras.
Há oito anos, mais da metade dos moradores de Marquinho, por exemplo, vivia com renda mensal per capita de até meio salário mínimo e a densidade demográfica era de dez pessoas por quilômetro quadrado, reflexo do êxodo populacional.
Só há alguns anos estas regiões mais pobres passaram a merecer a atenção dos governos Federal, Estadual e Municipal. E os resultados começam a aparecer. Projetos de melhoramento genético do rebanho bovino, de diversificação da produção, de reforma das casas, de qualificação dos trabalhadores, entre outros, estão devolvendo a dignidade a estas populações que, aos poucos, vão recuperando a auto-estima e a esperança em dias melhores.


