MUNDO JOVEM - Ser ou não ser?
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quarta-feira, 28 de março de 2007
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Toda vez que o Festival de Teatro de Curitiba (FTC) acontece é a mesma coisa: a cidade fica mais viva, os espaços vazios ficam cheios de gente vendo peças ao ar livre, os homens-estátua se multiplicam nos calçadões, as crianças dão mais risadas, os adultos querem se ver em algum palco. E, em meio a tudo isso, pouca gente pergunta: como é o dia-a-dia de quem está do outro lado, tentando entreter tanta gente? A FOLHA acompanhou um dia de ensaio com o jovem ator Marcel Gritten, indicado a Revelação no Troféu Gralha Azul, e que está em cartaz com Werther, no Teatro José Maria Santos.
A paixão de Marcel pelo teatro começou como a de inúmeros interessados pela dramaturgia. ''Assisti uma vez uma peça no Lala Schneider (teatro) e gostei, me coloquei no lugar daquelas pessoas da peça. Depois fui atrás do curso, não achei que fosse dar certo, não fui com a pretensão de ser ator'', afirmou.
Desde 2003, quando fez um curso no Teatro Lala Schneider, a agenda de Marcel passou a ficar apertada. O ator, de 19 anos, cursa faculdade de Publicidade na Universidade Federal do Paraná (UFPR) pela manhã e faz estágio à tarde. Costuma ensaiar à noite. ''Eu acordo bem cedo e na maioria das vezes o ensaio é a noite mas também acontece à tarde, em dias de estréia. Eu durmo no máximo umas seis horas por dia'', explicou, enquanto se preparava para a estréia de Werther, a partir de obra clássica de Goethe.
O dia de ensaio, aliás, foi bastante intenso, começou pouco após o almoço e foi até aproximadamente 20 horas, duas horas antes da estréia do espetáculo. Tudo precisava estar pronto para o espetáculo de logo mais e o diretor Marino Jr., ao lado de Marcel, precisou analisar toda a estrutura durante a encenação para acertar os últimos detalhes. Afinal de contas, o cenário precisa garantir o clima, a iluminação deve estar sincronizada com os passos e falas do ator, juntamente com a música e os objetos no palco.
No palco, várias cadeiras, uma caixa com vários objetos e um barbante, uma escada, um chapéu. Ao fundo, uma bicicleta. Tudo é utilizado de maneira precisa e simboliza um estado de espírito do personagem principal, um jovem artista que se vê abalado por uma paixão proibida.
Essa adaptação de Werther requer um pouco do físico de Marcel, que revela ter sugerido algumas das cenas. ''Confesso que sou meio preguiçoso para fazer aquecimento de corpo, sempre faço de voz. Mas tenho que fazer porque se não me dá cãimbras'', admitiu. Pouco antes, o ator havia sentido cãimbras no braço durante uma cena em que subia em uma das estruturas do palco.
Vida de ator - Quem vê Antônio Fagundes ou Glória Pires na tevê, ou mesmo jovens atores curitibanos que conseguiram projeção recentemente, como Simone Spoladore ou Guilherme Weber, não imagina que o começo nos palcos da Capital seja difícil.
''Tem muita gente que começa pensando em tevê, em fama. Esse não pode ser o motivo. Se rolar, legal'', disse. ''Muita gente entra no teatro em busca de fama e não de sucesso.''
O maior problema para os iniciantes é o de assumir o compromisso com o teatro, o que significa destinar grande parte do tempo diário para a atividade. ''É, algumas pessoas deixam de fazer por causa do tempo mesmo. Mas para quem consegue conciliar o tempo, a dificuldade é entrar no mercado de trabalho, porque tem muita gente saindo do teatro e é difícil você trabalhar com outros diretores'', comentou.
De acordo com Marcel, outras coisa que pode atrapalhar quem está começando é a preocupação demasiada com a teoria. ''Às vezes muita teoria atrapalha. Cheguei com certos preconceitos para fazer algumas coisas e isso atrapalha, cria vício de interpretação.''
Além disso, pesa a questão financeira. Mesmo numa situação mais favorável, indicado ao prêmio de Revelação no Troféu Gralha Azul e de certa forma estabelecido na cena curitibana, Marcel ainda não pode deixar pra trás a faculdade e a possibilidade de ganhar dinheiro com outra atividade. ''É difícil viver só disso, porque você precisa de mais tempo. Porque você não só atua, você normalmente também começa a produzir, a conhecer operação de luz, som, cenário, figurino, direção e por aí vai.''
E nem sempre o público comparece em peso, como costuma acontecer no FTC. ''No festival o pessoal vai ao teatro mas depois não vai mais. Vai uma, duas vezes por ano ao teatro. Acho que o problema não é o preço e sim a falta de costume mesmo de ir ao teatro.''
Segundo Marcel, o que o ajudou a crescer na profissão foi sua constante produção. ''O que me ajudou foi ter feito bastante coisa, estar sempre trabalhando. Porque acho que teatro você aprende fazendo, se não tem a parte teórica, você vai atrás e lê.''
E, claro, a paixão pelo teatro faz toda a diferença. ''O cinema é a arte do diretor e o teatro é a arte do ator. No teatro você tem mais contato com o público, no palco a coisa está viva, você sente a energia que vem da platéia. Às vezes uma cena está diferente, às vezes estou com um espírito diferente. Essa incerteza é o que me atrai no teatro'', destacou. ''Só me sinto satisfeito quando vou além do que faço'', complementou o ator, ao citar uma de suas referências, a atriz Fernanda Montenegro.


