É deveras comum entre a geração que cresceu lendo revistinhas do Batman - da DC Comics - e Homem-Aranha - da Marvel Comics -, o sonho de um dia trabalhar para as editoras que publicam as aventuras destes super-heróis. Desenhar o personagem preferido ou mesmo escrever seus diálogos, costuma ser uma meta que os iniciantes perseguem enquanto são muito jovens, mas que depois a esquecem devido às grandes dificuldades de entrar no mercado americano de quadrinhos. Mas nem sempre é assim. Existem vários exemplos bem sucedidos de brasileiros que conseguiram imprimir seus nomes - mesmo que adaptados - nas histórias em quadrinhos (HQs) americanas.
Como a maioria que envereda para este caminho, Leonardo Gomes de Melo, de 23 anos, começou a se interessar pelos quadrinhos quando criança. Colecionador contumaz das revistas do Homem-Aranha, ele já escreveu um livro (que nunca foi publicado) contando a trajetória do herói, mas admite que o sonho de escrever roteiros para a Marvel ficou pra trás. ''Hoje tenho mais vontade de escrever sobre os meus próprios personagens'' explica.
Junto com o amigo André Caliman, de 20 anos, Melo lançou em 2006 a revista independente Quadrinhópole, que já está na terceira edição. Segundo Caliman, que desenha as histórias, a experiência que adquiriu na cena independente poderá ajudá-lo na hora de se adaptar às exigências do mercado americano. ''Com a nossa revista o prazo já é apertado, pois tenho que desenhar uma página por dia'' conta.
A responsabilidade de quem desenha para grandes editoras de HQs dos EUA é grande. O paranaense Carlos Magno, de 30 anos, conseguiu a duras penas garantir seu lugar neste mercado. Desde 2006 ele desenha para a DC Comics. Antes de ser contratado fez vários testes e mandou seu trabalho durante 7 meses para seu agente ''fiz umas 50 páginas de teste'', lembra. A rotina de trabalho também é bastante puxada, ''Começo a desenhar às sete da manhã e só paro às oito da noite.''
Outro brasileiro que garantiu seu espaço nas grandes editoras é o paraense Joe Bennett, de 40 anos. Ele desenhou para a Marvel durante 10 anos e há 3 está na DC. Sua rotina também não é mole, começa a desenhar às 15 horas e vara a madrugada fazendo seus trabalhos. ''Há muito tempo não sei o que é manhã.''
No processo industrial de produção de HQs, vários profissionais, como o arte-finalista e o colorista, dependem do trabalho do desenhista. A multa para cada dia de atraso é de, aproximadamente, 200 dólares. ''Uma vez tive que desenhar e arte-finalizar 15 páginas em 22 dias'', conta Magno. ''Trabalhava até minha mão parar.''
É comum entre os brasileiros que desenham para o mercado americano usar variações do próprio nome na língua inglesa. Luke Ross, por exemplo, é na verdade Luciano Queiroz; Mike Deodato é Deodato Filho e Joe Bennett foi batizado como Benedito José. Carlos Magno não precisou mudar seu nome para entrar nas editoras estrangeiras, mas seu desenho sofreu influência. ''Tive que deixar meu traço menos livre para me adaptar ao processo.''
Hoje o Brasil tem vários representantes no mercado americano de HQs. Segundo Joe Bennett, são mais de 30 desenhistas trabalhando para o mercado externo. Na sua opinião, o que possibilitou esta invasão foi a internet. ''Hoje você pode desenhar em qualquer lugar do mundo sem problema com prazos.''
O lado financeiro também compensa, tanto Bennett quanto Magno são enfáticos ao afirmar que é possível viver bem desenhando para as grandes editoras, apesar de não revelarem quanto ganham. Ao longo de sua experiência, o preço por página desenhada por Bennett dobrou.

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