MUNDO JOVEM - O universo sombrio dos filmes de terror
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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
Sangue jorrando, desmembramento, violência, escatologia, humor negro. Palavras que imediatamente nos leva a pensar em coisas negativas. E que fazem parte de um universo incomum, o dos trash movies (ou filmes B), ou do cinema de terror em geral. O recente revival de gêneros que apavoraram multidões há 30 ou 40 anos mostra que a vertente vem reunindo cada vez mais fãs e que, se depender dessa galera, deve continuar por aí ainda muito mais tempo, para o desespero de gente que só gosta de coisas ''bonitinhas''.
Mas como nasce o interesse de alguém pelo cinema de terror? ''Eu gosto desde criança, quando ía para as locadoras, procurava os filmes de terror'', lembra o psicólogo Jones de Souza Filho, 38 anos. Para ele, esses filmes são marcantes para qualquer geração. ''Um filme de terror ruim tem mais impacto que um drama ruim'', completa Jones, que é fã do expressionismo alemão, como Nosferatu e O Gabinete do Doutor Caligari.
Para Tiago Pinheiro, 20, o interesse começou através da música. ''Comecei a gostar na infância, meu irmão gostava bastante de metal, como Metallica e Iron Maiden'', recorda. Hoje, o estudante diz que a preferência é pelo gênero exploitation (veja glossário) com produções trash movies gays. ''Gosto bastante do Freaks, do Helloween mas o que prefiro é o cinema queer (travesti)'', revela.
O ilustrador Bruno Erwin Hoffman Jr, de 38 anos, gosta dos filmes de terror, em específico os dos anos 50, devido à estética dessas produções. ''É legal ver a tosquice mesmo o filme sendo horrível. A produção é mais crua e hoje em dia, por mais empenhado que o artista tenha, ele não vai conseguir reproduzir a coisa física real, mesmo em coisas 3D. Tem que criar a mecânica e não só basear os efeitos em 3D'', explica.
O músico Vlad Urban, diz que esses filmes ajudam a pensar na morte de uma forma menos aterrorizante. ''Gosto de filme bom e acho que tem uma coisa especial com os filmes de baixo orçamento. Lidar com a morte com bom humor é um jeito legal de lidar com esse final que todo mundo vai ter'', avalia.
Alyssa Aquino trabalha em uma locadora de vídeos e assume ser a mais ''normal'' do grupo. Ou seja, não é fanática por cinema gore/splatter ou trash movies, mas em filmes de terror em geral, principalmente os japoneses mais recentes. ''Gosto pelo o que o filme quer dizer. Gostei muito de ''Espíritos'' e de ''Tetsuo''. Os orientais sempre querem mostrar coisas a mais, coisas que nos outros filmes têm também mas não em filmes de terror'', justifica.
Discriminação - O gosto incomum, no entanto, costuma ser visto com maus olhos para quem está acostumado com filmes tradicionais de aventura, ação ou drama. De acordo com Tiago, inicialmente foi difícil a família aceitar sua postura diferente com relação a esse universo ''obscuro''.
''Meu pai chegava em casa e eu vendo um filme de um travesti cantando de sunga (sobre o filme The Rock Horror Picture Show, de 1975). É claro que ele não gostou, até tentou me repreender, mas não deu certo'', lembra Tiago. Para o estudante o que o atrai nesses tipos de filmes é a forma iconoclasta com que os mesmos tratam de assuntos polêmicos e como os produtores debocham do preconceito e da discriminação de pessoas ''politicamente corretas''. ''Acho que talvez por tratar de temas como a sexualidade com a escatologia, por exemplo, eles conseguem chamar a atenção'', reflete.
''Já acharam que sou satanista porque gosto desses filmes e de Black Sabbath. Diziam pra mim 'você fez pacto com o demônio'. Mas é só preconceito de um certo grupo'', afirma Jones, que atribui o interesse ao terror como algo intuitivo de quem gosta de fantasia. ''O conto de terror vem na sequência do conto de fadas, trabalha a fantasia também'', filosofa.
Para Bruno, é preciso uma certa disposição para ver imagens mais fortes. ''Tem que ser um pouco sádico para gostar de filmes de terror. Você vai para ver até onde vai a frieza de quem faz'', diz.
Vlad acha que a crueldade maquiada vista nesses filmes é muito menos violenta do que o cotidiano dos grande centro urbanos. ''A realidade é muito mais dura do que um filme de terror. Um assassinato na rua é mais violento que um filme de terror'', pensa. E completa: ''Acho que a questão é que esses filmes te dão adrenalina, te tocam, te perturbam, chamam a atenção. Não que você vá fazer essas coisas que aparecem nos filmes na rua, mas mexe comigo. As pessoas têm que entender que não é diferente de assistir um outro filme qualquer e ter outras emoções. Tem gente que não gosta, tudo bem.''


