MUNDO JOVEM - Mulheres de fibra
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quarta-feira, 07 de março de 2007
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
Elas não ligaram para a discriminação que poderiam sofrer, para as possíveis piadinhas infelizes ou mesmo por nadar contra a maré no mercado de trabalho. Decidiram encarar o desafio e hoje não só dão conta do recado como acrescentam muito da sensibilidade feminina ao ambiente profissional. São jovens mulheres, únicas em lugares antes dominados pelos homens.
Eliana Marcolino da Silva, 29 anos, é a única mulher entre 12 funcionários que atendem cerca de 3 mil caminhões por dia na balança da Ecovia, no Km 63 da BR-277, rumo ao litoral paranaense. ''Eu comecei como atendente na SAU (Serviço de Atendimento do Usuário da Ecovia) e depois passei no teste seletivo para a arrecadação na praça de pedágio, onde a maioria é mulher. Depois fiz o teste seletivo para vir para a balança, onde a maioria é homem'', lembra a operadora.
Para Eliana, o trabalho, que normalmente não é motivo de desejo entre as mulheres, é um desafio para testar a si mesma. ''É um desafio, eu tinha que me desafiar para saber que sou capaz, para saber que as mulheres são capazes'', diz. ''Independente disso, o importante também é que a área de atuação é a que gosto, essa área operacional me atrai'', justifica.
E como é trabalhar onde a maioria é faz parte da ala masculina, não só na praça da balança, mas também na estrada? ''Não tem piadinhas nem nada, pelo contrário, eles até me respeitam mais por eu ser mulher'', assegura. E o jeitinho feminino de lidar com as coisas ajuda a conter muitos caminhoneiros, furiosos quando são autuados por estar com peso irregular. ''Eles descem para reclamar mas quando vêem que é mulher eles falam com mais calma'', destaca.
Eliana não só opera a balança com também sai para a patrulha nas estradas, carrega cones. A operadora não liga de fazer o serviço braçal e conta com o apoio dos pais e amigos. ''Eles me apóiam e só fazem brincadeira quando sai alguma coisa no jornal'', afirma. Aluna do segundo período de Direito na Pontifícia Universidade Católica (PUC), ela já planeja unir as duas áreas de atuação. ''Futuramente eu pretendo trabalhar aqui, na área de Direito. Ainda estou analisando, isso seria legal'', completa.
A recém-formada jornalista Diana Vieira, 22 anos, também tem um cotidiano rodeado por ''assuntos de homem''. Ela é a única mulher na equipe de esportes da Rádio Clube AM B2, onde apresenta o programa ''Show de Bola''. ''Nunca imaginei que fosse acabar fazendo esporte. Mas abriu uma oportunidade e resolvi encarar'', explica.
Como a rádio nunca havia trabalhado com uma mulher em programas esportivos, Diana ainda passa por um período de adaptação. ''O ambiente é muito tranquilo, então o pessoal é muito receptivo. Fiquei um pouquinho com o pé atrás no começo porque nunca trabalhei com esporte'', revela.
E sua chegada já reflete na programação. Segundo Diana, uma voz feminina atrai mais as mulheres para o universo esportivo e também dá mais credibilidade junto ao público em geral. ''A mulher tem uma visão diferente do esporte. Acho que é cultural. Os homens lutam o tempo todo contra o time, para não torcer na hora do trabalho. Eu já encaro o futebol de uma maneira profissional, sem essa paixão'', comenta.
E como é ser a única mulher no meio de tantos homens? ''Acontece do pessoal falar palavrão e depois pedir desculpa quando lembram que tem mulher por perto. Quando você está no meio de tantos homens, você tem que se soltar. Eles respeitam bastante, tem mais é brincadeira mesmo, mas nunca me senti intimidada'', afirma.
No entanto, Diana concorda que ainda há muita discriminação no mercado de trabalho. ''A mulher ainda sofre discriminação. Em muitos lugares ainda enfrenta-se essa resistência. Isso é péssimo, porque o fato de ser diferente é uma coisa boa'', reflete a jornalista, que estréia como âncora no programa ''Rádio Esporte B2'', no próximo sábado.
O que eles acham - A ''competição'', tanto no ambiente de trabalho de Eliana e de Diana, é muito bem recebida pelos homens, que comemoram a presença feminina e também ressaltam o valor delas no dia-a-dia.
''A presença dela faz com que o público e a própria equipe mude a linguagem, que também atende um número maior de ouvintes'', ressalta Nelinton Rosenau, 30 anos, locutor, companheiro de estúdio de Diana na Rádio B2. ''A voz feminina dá mais credibilidade.''
''Ela trabalha igual a todo mundo, se dá bem com todo mundo, é bem tranquila'', elogia Divo Oliveira Cordeiro Júnior, 24 anos, operador de balança, colega de trabalho de Eliana. E completa: ''É até bom porque alguns caminhoneiros, que sempre acham que estão com a razão, aliviam um pouco quando falam com ela'', nota.


