MUNDO JOVEM - Consumista, eu?
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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Como dizem por aí, ''o ano começa depois do Carnaval''. E, para os lojistas, o ditado faz ainda mais sentido porque é justamente nessa época do ano é que os resquícios do Natal e Ano Novo vão embora para a chegada de uma nova temporada, cheia de lançamentos. Alegria para os comerciantes e ''dor de cabeça'' para os consumidores ávidos por novidades.
O consumista de ponto de vista patológico é aquele que compra inconsequentemente e depois tem problemas para pagar suas dívidas. No entanto, existem os ''consumistas casuais'', aqueles que também enfrentam problemas para lidar com ansiedade e impulsividade - especialmente nos momentos em que a mídia bombardeia os consumidores com propostas tentadoras -, mas que garantem estar no controle da situação e das contas.
''A época do Natal é a pior por causa do apelo da mídia, que faz com que as pessoas explorem mais a vontade de consumir'', admite Roberta Pires, 26 anos, Relações Públicas que se considera ''um pouco consumista, porque em alguns momentos a gente gasta o que não deveria''.
Roberta já chegou a gastar cerca de R$ 400 em uma simples tarde de visita ao shopping center e perdeu a conta do número de pares de sapato que tem em casa. ''Quando a roupa é legal eu compro duas iguais, já pensando na hora que uma delas vai estragar'', acrescenta. Apesar da impulsividade e da dificuldade em lidar com a ansiedade, ela se considera uma pessoa controlada. ''Não gasto o que não posso, vou mais em liquidações'', diz.
O estudante João Lucas Pires, de 24 anos, também se considera um desses ''consumistas casuais'', que têm a ansiedade de estar sempre na moda mas controlam o bolso. ''No bolso a razão fala mais alto. Difícil é controlar a ansiedade'', afirma. ''Costumo trocar o celular no período de um ano e gosto de comprar camisas e calças. Não gasto tanto e procuro comprar coisa de qualidade'', assegura.
João não se sente consumista mas também vê o consumismo de uma forma diferente. ''O consumismo é visto como algo pejorativo mas nem sempre é assim'', comenta, ao dizer que é algo natural, parte da rotina no dia-a-dia urbano.
A administradora Cássia Imai, 30 anos, concorda com João. O consumismo, principalmente dessa forma casual, é bastante comum. ''Eu gosto de fazer compras, não só coisas para mim mas para meus amigos, minha família. Compro bastante roupas e coisas para cachorro.'' Cássia, que chega a gastar mil reais nos artigos considerados supérfluos, reclama de já ter sido acusada de consumista com um tom pejorativo. ''Já chegaram a me criticar e como eu também guardo dinheiro, achei injusto'', completa.
Cássia garante que gasta bastante mas tem controle e também admite que às vezes é difícil segurar o impulso. ''Acho que (o consumismo) está mais ligado a ansiedade. É porque sempre tenho uma frase na cabeça, que é ''não passe vontade'', então eu não passo vontade. Já pensei em me controlar mais e esse ano estou me controlando porque estou construindo uma casa'', explica.
Diferente do que muitos pensam, esse ''consumismo casual'', controlado, é motivado pelo impulso mas bastante planejado antes do cliente efetuar sua compra e realizar o desejo imediato de ter uma novidade nas mãos. Para o consultor Luís Felipe Koppe, 25, o custo-benefício é o que mais conta na hora de ceder a ansiedade.
''Não é a coisa em si que me atrai e sim a possibilidade de poder colocar todos os discos que eu escutava na infância dentro de uma aparelho como esse'', explica, ao apontar para uma compra recente, um IPod capaz de armazenar milhares de arquivos de som e vídeo.
Luís gosta de aparelhos eletro e eletrônicos de última geração, como câmeras de foto e vídeo, celulares, entre outros. Mas gasta mais é com uma de suas paixões, a música. ''Às vezes gasto R$ 100 com jogo de cordas mas tem mês que acabo gastando R$ 6 mil ou R$ 7 mil com instrumentos'', afirma.
Hoje, o impulso de comprar é controlado porque, para Luís, a maturidade ajuda bastante na hora de conter a ansiedade. ''Quando era criança quem pagavam as contas eram meus pais e agora sou eu'', justifica ao avaliar como reage ao consumismo.


