MUNDO JOVEM - Caminhos para recomeçar
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quarta-feira, 16 de maio de 2007
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Marcos quer ser jornalista. Francisco sonha em ser um biólogo da vida marinha. Otávio, Rodrigo e Gerson pensam em voltar aos estudos, aproveitar a segunda chance que têm nas mãos. Os desejos são os mesmos de jovens comuns de qualquer cidade brasileira. A diferença fica por conta de como viveram até agora. Marcos, Francisco, Otávio, Rodrigo e Gerson (nomes fictícios) cometeram delitos graves e por isso cumprem o programa do Centro de Socioeducação da Fazenda Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC).
Os cinco adolescentes, mesmo ainda tão jovens, preferem deixar o passado para trás em busca de uma nova vida. Relembrar é viver, porém, nesse caso, a memória não tem muitas cores ou alegrias. Crescer em meio à violência transformou essas crianças em algo que hoje elas tentam esquecer.
''Às vezes, as drogas influenciam bastante, tem gente que vai no embalo, faz coisa errada'', diz Francisco, de 18 anos, que antes de chegar à unidade morava com a família no Cajuru e trabalhava na Vila Hauer, como auxiliar. ''O erro foi ter saído da escola'', lamenta, ao reconhecer que tomou um caminho errado, que o levou a cometer um crime. ''Antes eu ia pra balada, bebia, ficava louco. Quando os caras ficam chapados não estão nem aí'', acrescenta Marcos, de 17 anos.
A violência nos bairros, gerada principalmente a partir da briga pelo território e tráfico de drogas, leva os mais novos a crescer em um meio nada saudável. ''Tem muita briga entre as vilas. Outro dia, meu sobrinho de 12 anos estava no colégio, na Vila Autódromo, e passaram uns caras da Vila Trindade lá na frente e deram uns tiros, depois acertaram uma coronhada no olho dele'', conta Marcos, sobre o conflito no Cajuru. ''Lá, se você chega perto da linha do trem, o pessoal já dá rajada de bala, porque você não pode passar na área deles'', completa.
Agora, o pensamento é recomeçar. ''A gente parou para começar de novo'', dizem. E a rotina na unidade, administrada pelo governo através da Secretaria de Estado da Criança e do Adolescente (veja reportagem nesta página), dedica-se a isso. ''Esses meninos precisam construir uma perspectiva de vida que mude ele para outra caminhada e a família seja retrabalhada para criar vínculos'', explica a diretora do centro, Lilian Drews.
Por isso, o dia começa bem cedo para os 34 garotos, de 12 a 18 anos, da unidade de Fazenda Rio Grande. Às 7h50, todos acordam, escovam os dentes e tomam café da manhã, para, em seguida, participar das aulas de matemática, português, educação física, histórias, entre outras. Às 11h50, vão para o almoço e voltam ao aprendizado às 13h30. ''Nesse horário eles também têm lazer, ficam na quadra, assistem vídeo. Alguns fazem cursos de circo ou serigrafia, por exemplo, em Ongs (Organizações Não-governamentais), daí eles até saem um pouco'', afirma o educador social Claudio Hartmann Santo, de 29 anos.
Às 17 horas, os meninos tomam banho e, jantam às 18h30. Alguns fazem oficinas à noite, ou assistem aulas de filosofia, por exemplo, e depois podem ter a última refeição do dia, a ceia da noite, por volta das 21 horas. ''Eles dormem bem cedo, alguns já dormem depois do jantar e outros dormem lá pelas 21h30'', comenta Claudio.
Novos rumos - Arrependidos e dispostos a recomeçar os estudos, os garotos têm apenas um receio, ligado diretamente a cada um que está fora dali. ''A gente não queria que eles (as pessoas do 'lado de fora') não pensassem que a gente fosse ladrão'', afirma Francisco, que pode sair da unidade para acompanhar as aulas do segundo grau. ''No colégio, eu falo que trabalho aqui'', diz, já que sente no olhar e no tratamento dos colegas a discriminação.
Ficar recluso não só levou os meninos a sentir o preconceito do ''mundo exterior'' com mais intensidade como também exaltou alguns valores. ''Cada vez que a gente sai para ver a família, isso é um incentivo. A gente aprende a dar mais valor nas coisas, nos parentes, nos amigos'', destaca Rodrigo.
E as idéias para abraçar novos rumos pipocaram ainda mais nos últimos meses, com o projeto de jornalismo, cinema e fotografia de alunos da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná (veja reportagem nesta página). ''Foi uma experiência legal, a gente aprendeu a tirar foto, fazer reportagem'', exemplifica Francisco. ''Gostei de filmar e acabei gostando'', acrescenta Otávio, de 15 anos.
Criar um documentário, tirar fotos da própria realidade e entrevistar colegas da unidade também levou os garotos a refletir mais sobre a atual condição. ''A gente torce para que eles não façam isso'', afirma Francisco, ao se referir aos amigos e conhecidos que faziam da parte da vida antes da chegada ao centro.
De acordo com Francisco, o projeto ajudou a criar um objetivo mais claro daqui para frente. ''Eles (alunos da PUC) deram idéias novas. Quem não sabia, aprendeu que pode ter uma profissão.'' Para Marcos, uma oportunidade de continuar os estudos e deixar para trás a ''vida sem regra'' que levava. ''Foi bom porque a gente aprendeu a sempre respeitar mais o próximo, quando for falar com outros, deixar a pessoa falar e escutar. Antes eu já chegava e não ouvia ninguém'', exemplifica. ''Quero fazer um curso, uma faculdade, de jornalismo policial''.


