Agência Estado
O Século 20 viu o nascimento de superpotências e o declínio de impérios em décadas turbulentas e explosivas, mas termina estavelmente sob a hegemonia dos Estados Unidos. Uma hegemonia mais financeira e cultural do que propriamente militar ainda que o poderio bélico norte-americano seja exposto eventualmente em intervenções localizadas como a Guerra do Golfo e a crise de Kosovo.
A orgulhosa Europa não há de tolerar esta situação por muito tempo, asseguram especialistas. Berço das metrópoles que ainda dominavam a África, a Ásia e o Caribe na virada de 1900, depósito do arsenal nuclear que sobrou do desmonte soviético, o Velho Continente procura ganhar força para subir ao prato vazio do outro lado da balança. Supera rancores seculares e busca uma moeda forte – o Euro – para se unir diante do dólar praticamente universalizado.
Diferente da disputa quase pessoal dos líderes que detonaram a Primeira Guerra Mundial, há hoje na Europa o desafio de um adversário externo. Não há mais a Alemanha expansionista de Guilherme II que hostilizava a França e disputava a supremacia naval com a Inglaterra. Os Estados personalistas deram lugar aos Estados políticos do entre-guerras, quando os blocos democráticos se opuseram às promitentes potências centralizadoras do Eixo para terminar no monumental conflito dos anos 40.
NOVO CENÁRIOAlemão participa da derrubada do Muro de Berlin, observado por policiais, em 1989: Planeta dividido por ideologias perdeu o sentido e globalização da economia ganhou ritmoDos Estados políticos emergiram Estados ideológicos que se confrontaram na Guerra Fria sob o escudo norte-americano, pelo Ocidente capitalista, e sob a bandeira soviética, pelo Oriente socialista. Queda do Muro de Berlim, em 1989, foi divisor de águas. Ao fim do debate atômico, a Europa refaz as contas da grande onda de privatizações e cortes de gastos sociais inspirada por Ronald Reagan e capitaneada por Margareth Tatcher. Os líderes europeus checam o resultado de reformas profundas feitas ainda no calor da Guerra Fria e admitem que não é mais tempo de agir sob a batuta de Washington, em nome do consenso emergencial.
É na Europa que se formula a chamada Terceira Via, uma saída gradual e sem choques para que o mundo deixe o absolutismo liberal e possa devolver ao Estado uma função maior que a de mero facilitador de negócios internacionais. Seja qual for o projeto de ‘‘governança’’ para o Século 21, não deve caber por muito tempo na História um só centro de poder. Seja com o apoio de blocos como o Mercosul, seja sustentada no poderio econômico e militar que não perdeu, a Europa tenta se habilitar para dar equilíbrio à nova ordem mundial. Nem que para isso precise contar com Boris Yeltsin, que ainda tem a chave do depósito de ogivas.

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