São Paulo - "Sniffin’Glue" foi editado nos idos de 1976, na cena punk inglesa. É considerado o primeiro fanzine da história. Ao som de Sex Pistols e Clash, garotos com a boca maior do que a de Steven Tyler - o cantor do Aerosmith - pintavam em preto e branco a Inglaterra do lema "no future for you" (sem futuro para você) nas folhas de papel sulfite. O que parecia brincadeira adolescente sobrevive 30 anos depois. Mesmo atrelado à revolução digital, à escassez do papel e ao empobrecimento dos leitores "não virtuais", pessoas como o jornalista Bento Araújo ainda acreditam que a "revolução" possa ser escrita em um pedaço de papel e pincel xerocada diversas vezes.
O jornalista de 31 anos leva a vida de zineiro há seis. Sozinho, escreve, diagrama, vende anúncio, é o homem da cobrança e quem dá um trato na redação quando a sujeira chega ao pescoço. Hoje, acredite se quiser, vive exclusivamente da produção do "Poeira Zine" (com preço de capa a R$ 7), espaço reservado à música dos anos 50, 60 e 70. "Faço o que eu gosto. Trabalho sem parar, mas amo a música", fala Bento. Bem melhor instalado que no apertado quarto de sua casa, Bento "alocou" um espaço com a namorada no escritório de arquitetura que ela tem com duas amigas.
"Trabalhava em uma loja de CD e senti a escassez de um informe para pessoas que curtem um rock clássico. Tive a idéia de fazer um zine e distribuir entre os clientes. Como as páginas foram ficando bacanas, decidi tentar vender alguns anúncios para outras lojas de disco. Quando fui ver tinha dinheiro suficiente para rodar o ‘Poeira’ em uma gráfica de verdade." A próxima edição sairá do forno ainda este mês, com Jeff Beck na capa. Seus leitores são avisados do lançamento por e-mail e pelo site www.poeirazine.com.br.
Ironicamente, é por meio da internet que o "Poeira" sobrevive. "Consigo chegar a lugares como o Piauí somente através do site." Mas não são apenas os aficionados por música que habitam os submundos dos fanzines. Moda, cinema, música, quadrinhos e arte dialogam com propriedade nas páginas dos zines. Editado pelo quadrinista e ilustrador Jozz, o zine Royale (zineroyale.wordpress.com/) chega ao leitor pelo preço de R$ 3 e é impresso em gráfica off-set. Segundo Jozz, "os artistas convidados produzem em cima de uma temática reflexiva, passeando pela teoria do absurdo e do existencialismo. Além de trazer quadrinhos e ilustrações, as edições contam com uma matéria sobre determinada área e uma entrevista. A capa sempre é feita pelo entrevistado."
Jozz também participa de outro zine, o "Psic!", um fanzine pílula. "Pequeno, rápido e indolor, o ‘Psic!’ traz produções de artistas em diversas áreas de atuação", comenta Sissy Eiko, arquiteta de formação e editora do zine. As linguagens se fundem em uma interação de artes, uma experimentação em produção independente", completa.

Correndo contra o correio
Longe da época em que os zines eram exclusivos em folha sulfite xerocada, o "Charivari" (www.chari-vari.blogspot.com) é impresso em serigrafia e apresenta um formato tablóide com 48 páginas impressas sobre diversos tipos de papel. É também mais um que funciona como uma espécie de coletivo cultural.
A distribuição desse material é feita na raça. "Saía com os zines na mochila e distribuía para amigos e lojistas no início", lembra Bento. Hoje, com um sistema de assinatura, o jornalista só tem medo de uma palavra: greve. "Greve no correio é pior do que toda a crise no mundo. Os leitores do ‘Poeira’ são muito exigentes, querem ler sempre mais". Da mesma maneira, os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá distribuíam o zine "10 Pãezinhos" na faculdade e em uma loja de quadrinhos. "Era uma eterna correria", comenta Fábio.
Mesmo com os milhares de zines surgindo na internet diariamente, o efeito de um produzido em papel ainda é único. "Ele carrega um charme especial", salienta Bento. Crise mundial? Que nada. O que eles torcem é para o correio não parar.

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