Nas capas das revistas de moda e de ‘‘celebridades’’ elas estão sempre lindas, maquiadas, caprichosamente penteadas e sorridentes. Principalmente sorridentes. As fotos acompanham manchetes sobre o sucesso obtido pelas ‘‘belas’’, seja na profissão, no relacionamento ou numa simples dieta. Uma rápida olhada pelas bancas e um ligeiro folhear nas publicações e quase acreditamos que tudo agora pode ser muito fácil para o gênero feminino.
  Contudo, se direcionarmos o olhar com atenção e vontade para o dia-a-dia das ruas conseguimos enxergar que o universo das mulheres está cada vez mais competitivo, agitado, estressante, exigente. Há tempos já não basta fazer o básico, é preciso superar desafios cada vez maiores para alcançar a tão propalada igualdade com o sexo masculino.
  Nesta semana em que é comemorado o Dia Internacional da Mulher, a Folha Curitiba publica uma série de reportagens que, além de prestar homenagem e contar histórias do mundo feminino, propõe reflexões. Quem são e como são as mulheres que moram atualmente na cidade? Quais são seus anseios, medos, metas?
Como vivem e aonde querem chegar?
  Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD) 2005, elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Região Metropolitana de Curitiba há cerca de 330 mil famílias cuja pessoa de referência é do sexo feminino, sendo 17,7% delas chefiadas por mães com filhos menores de 14 anos.
  De cor-de-rosa esse cenário não tem quase nada. Talvez o batom, que continua sendo fundamental. Mas, estatísticas e depoimentos revelam também que, se aumentou o grau de dificuldade, o nível de satisfação pôde ser ampliado. Hoje, ser independente financeiramente, exercer funções antes consideradas masculinas, decidir morar sozinha ou não ter filhos já não causam grande impacto. Enquanto certos segmentos insistem na vida feminina glamourosa, as mulheres reais estão por aí, tomando decisões, sem a obrigação de seguir a opinião ‘‘deles’’.
  É importante destacar que, entre 2004 e 2005, houve um ligeiro aumento de 0,4 ponto percentual na proporção de mulheres na categoria de dirigentes em geral. Os maiores percentuais de mulheres nessa categoria estavam em Brasília (8,0%) e na região metropolitana de Curitiba (7,8%).
Trabalho e estudo
como prioridade
  ‘‘A discriminação agora é mais sutil, mas ainda existe. Já trabalhei em uma empresa em que todos podiam concorrer a outros cargos, mas só os homens eram aprovados’’, afirma Silvana Silva, analista comercial de uma grande indústria na Capital, a respeito da preferência que alguns empregadores ainda têm pelos homens no momento das contratações e promoções.
  ‘‘Quando um homem decide promover uma mulher ao cargo de gerente, por exemplo, sabe que vai ter de enfrentar uma profissional que fará cobranças, que vai querer tudo muito certinho. Muitas vezes é mais fácil colocar outro homem, com quem ele não terá de discutir, que vai apenas concordar com as decisões do chefe’’, argumenta ela, que está no mercado de trabalho desde os 16 anos.
  Ainda assim, a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE destaca que, entre 2004 e 2005, houve um ligeiro aumento de 0,4 ponto percentual na proporção de mulheres na categoria de dirigentes em geral. Os maiores percentuais de mulheres nessa categoria estavam em Brasília (8,0%) e na RMC (7,8%).
  Silvana é uma das cerca de 470 mil trabalhadoras da Capital – de acordo com dados do IBGE referentes a 2001 – e exemplifica outro perfil cada vez mais freqüente: o da mulher que dedica boa parte do tempo ao estudo e ao aperfeiçoamento profissional.
  Aos 31 anos, formada em administração, ela começou a trabalhar ‘‘porque sempre quis’’, como estagiária em uma loja de ferramentas na Cidade Industrial. Agora se prepara para a conclusão da pós-graduação em marketing e está perto de alcançar uma nova conquista, a compra do primeiro apartamento. ‘‘Dá um gostinho de vitória, esse dinheiro é suado’’, diverte-se.
Vivendo cada
vez mais
  Mesmo trabalhando e estudando, Silvana Silva não abre mão de hábitos saudáveis, como caminhadas nos parques, e alimentação balanceada. Afinal, como também aponta o IBGE, as mulheres vivem mais que os homens. Em 2006, a expectativa de vida do brasileiro passou para 72,3 anos. A maior alta foi verificada entre a população feminina (35,7%). Enquanto a esperança de vida dos homens era de 68,5 anos, a das mulheres chega a 76,1 anos ‘‘Não podemos descuidar da saúde, da aparência. Essa é uma exigência que a mulher tem consigo mesma’’, diz a analista comercial.
  A dona de casa Rosa Chad, de 74 anos, concorda. Viúva há seis anos, mora sozinha – ‘‘mas meus filhos me visitam sempre’’ – e pode ser encontrada fazendo as compras da semana no supermercado próximo de casa. ‘‘Eu trabalho o dia inteiro (em casa) e não sinto nada. Comigo vai tudo bem. Acho que os homens ficam mais doentes que as mulheres, eles se cuidam menos. Meu marido morreu de doença do coração. Sinto falta dele’’, diz ela, que para aplacar a solidão reúne-se de vez em quando com as amigas e vai diariamente à Igreja do Bom Jesus, no Centro.

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