Mulheres de fibra sobrevivem do lixo
Da Vila Portuguesa, Anderson segue até o barracão de reciclagem da Vila Marísia. Para ele, um dos pontos altos da periferia, Tem barracão de reciclagem em tudo que é lugar na cidade e isso aqui dá emprego para muita gente. O barracão acomoda várias categorias de reciclagem, como latas, papel, alumínio. Como era horário de almoço, só encontramos duas mulheres na reciclagem de PVC. Luzinete Gonçalves da Silva, 37 anos, casada e mãe de dois filhos. E Odete Francisco Silva Barbosa, 40, três filhos. As duas estão fazendo sua refeição ali mesmo, no lugar onde tiram o sustento da família. Elas têm verdadeiro orgulho do trabalho que realizam e dizem literalmente de boca cheia: Esse trabalho é maravilhoso.
Odete aponta para dezenas de sacos com matéria-prima até a boca, prontos para serem entregues nas firmas de canos de PVC de Londrina e região. Luzinete arremata: Esse trabalho é abençoado, imagina que tudo isso ia parar no lixão, agora vira meu sustento, agora eu tiro R$ 500,00 e cada vez a retirada vai aumentando. Odete está no seu terceiro mês no barracão da reciclagem e alem do salário mínimo recebe o Bolsa-Escola.
Ela diz que sobrevive do dinheiro da reciclagem. O bolsa escola é meu complemento. Um dinheiro que ajuda muito, porque eu posso atender as necessidades dos meus filhos. Eles estavam dormindo no chão, e, com o bolsa e mais o dinheiro que eu tiro na reciclagem pude comprar um beliche. Eu ouço dizer que esse dinheiro é esmola. Pode ser para quem não precisa. Para quem não sabe o que é dificuldade na vida. Para quem nunca viu os filhos, no inverno, dormirem no chão.
Da Vila Marísia, a próxima parada é o Jardim Maracanã, onde um grupo de mulheres fundou a ONG A.M.A.R. Ali elas transformam o papel jogado fora em obra de arte. Juntas, as nove mulheres batizaram seu negócio com o nome de A.M.A.R. Aqui tem outro trabalho bonito das guerreiras de Londrina informa o MC Pateta, feliz em mostrar a novidade. O atelier delas fica na Rua Adelina Piquete Barrios, 170, ao lado do posto de saúde novo do Jardim Maracanã, região Oeste.
A.M.A.R. significa Associação das Mulheres Artesãs em Reciclagem. Elas produzem folhas reciclando papel e também usam como base as fibras das folhas de bananeira, casca de cebola e flores diversas. Nosso trabalho é lindo, estamos transformando todo o papel, que antes ia para o lixo, diz Marta Maria Machado, que ao lado de outras mulheres tira parte do seu sustento no atelier de papel.
O trabalho começou depois de um curso há seis meses, quando a ONG Habitar Brasil chegou a Londrina para desenvolver uma série de oficinas com a intenção de proporcionar o surgimento de novos grupos de Economia Solidária para quem recebe algum tipo de benefício do governo. É a contrapartida social para as mulheres que recebem os bolsas, explica Marta. A Bolsa-Alimentação,
a Bolsa-Escola, seja qual for
o benefício recebido, é por tempo limitado, ajuda a garantir a sobrevivência enquanto nós nos organizamos em torno de um pequeno negócio, diz Marta, mãe de quatro filhos, sozinha, recebendo o Bolsa-Família, para alimentar sua família. (M.A.A.)





