'Mulas' brasileiras despistam o grande tráfico
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sábado, 14 de maio de 2005
Maranúbia Barbosa<br> De Paris<br> Especial para a Folha 
A brasileira Francisca, 21 anos, de Roraima, literalmente 'não teve estômago' para engolir mais do que 400 gramas de cápsulas de cocaína. Modos simples, sem muito jeito de turista, ela desembarcou no aeroporto de Roissy, em Paris, capital da França, em março de 2004, e de imediato despertou suspeitas nos policiais. Depois de terem feito algumas perguntas, eles a encaminharam para coleta de urina. Não deu outra. O exame detectou a presença do 'corpo estranho'. Do aeroporto, Francisca foi escoltada a um hospital, onde passou por uma radiografia. Depois de tomar laxantes, ela expeliu ali mesmo, assistida por enfermeiros e policiais, os invólucros da grossura de um polegar e cuidadosamente embalados com camisinha. Pelo transporte da droga, ela ganharia US$ 2 mil.
Do hospital, Francisca seguiu direto para a Maison d'Arrêt (a casa de custódia francesa) de Fleury Mérogis, cidade da região metropolitana de Paris, onde foi julgada por tráfico e cumpriu pena de quase dois anos.
Como Francisca, que saiu há pouco da cadeia e voltou para o Brasil, cerca de um quarto dos brasileiros presos na França traz a droga dentro do estômago. Mesmo para os mais ousados, é praticamente inviável engolir mais de 80 cápsulas de cocaína, o equivalente a um quilo. A quantidade, relativamente pequena, se comparada à que vem amarrada nas pernas, na barriga, no peito, sapatos e na bagagem dos traficantes, leva a crer que as 'mulas' (como são chamadas as pessoas que transportam droga) são usadas para despitar os grandes traficantes.
Esse é o caso de Vera, de Ponta Porã (MS), que também esteve presa em Fleury Mérogis ela cumpriu pena de 15 meses, foi liberada mas já esta presa de novo, dessa vez pela polícia de Santo André (SP). Segundo depoimentos que ela deu a amigo francês, viajavam no mesmo avião cinco ou seis traficantes. Quando Vera foi presa, ainda dentro da aeronave, uma mulher fez um sinal para que ela nada dissesse à polícia.
De acordo com Celso Libânio, do serviço consular da Embaixada do Brasil, em Paris, há casos em que a própria organização criminal denuncia o traficante. ''São iscas'', resume. Responsável pelo serviço de assistência aos brasileiros no exterior, Libânio atende as mulheres que estão nas penitenciárias da região parisiense e outras cidades do país. No momento, existem menos de 10 presas, sendo que duas delas, Maria e Marciana, são de Foz do Iguaçu e Cascavel. O número total de mulheres é incerto, já que nem sempre a detenção e a soltura são comunicadas. Há cerca de 10 meses elas eram aproximadamente 25, a grande maioria de Foz do Iguaçu e região.
Com exceção das que partem das grandes capitais, as mulheres saem mais das fronteiras internacionais do Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Amapá, Roraima, Pará e Amazonas. Algumas delas vão buscar a droga 'direto do produtor', indo, por exemplo, a Paramaribo, capital do Suriname.
Entre os homens, o quadro muda um pouco. Eles são em maior número, por volta de 40, e vêm de quase todos os estados do Brasil. Segundo Francisco Martins, também do serviço de assistência da Embaixada, atualmente tem mais homens de Florianópolis (SC), seguido de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Tabatinga (AM), Ponta Porã (MS), Pará, Roraima, Pernambuco e Alagoas. No momento, não tem nenhum do Paraná.
Como as mulheres, eles também transportam a droga no estômago e bagagens. A maioria fez a viagem pela primeira vez, mas há os que têm mais experiência. Um deles teve sucesso na primeira empreitada, mas ao voltar ao Brasil a quadrilha não pagou o prometido e ainda o ameaçou para que ele transportasse a droga mais uma vez. Ele trouxe e foi preso.
Martins diz que deveria saber o número exato dos brasileiros presos, mas a indefinição deve-se ao fato deles próprios declararem às autoridades francesas que não desejam informar à embaixada. ''Eles desconhecem o serviço que prestamos, têm medo da polícia brasileira ficar sabendo, e acham que os funcionários podem complicar a vida deles ainda mais.''
Segundo Martins, fora os condenados por tráfico, que são cerca de 90%, com idades entre 20 e 30 anos e penas de 24 a 36 meses, os demais vêm de Caiena, um dos departamentos ultramarinos da França. Eles cumprem penas longas, de 10 anos ou mais, sendo que alguns deles têm nacionalidade brasileira e francesa. Há ainda os que foram condenados por estelionato e tráfico de mão-de-obra clandestina, que ficam menos tempo, cerca de seis meses.
De acordo com as leis locais, se o detento tiver bom comportamento, cumprida a metade da pena ele pode pedir o relaxamento da sentença. Quando o juiz expede a soltura, o preso estrangeiro é encaminhado direto para o aeroporto e expulso do país. O Estado francês paga a passagem de avião e, dependendo da periculosidade da pessoa, um agente policial viaja junto até o Brasil para garantir a expulsão do indivíduo, seja ele homem ou mulher.
Conforme Martins, os brasileiros são liberados com mandado de expulsão e interdição de território. Se o juiz ordenar somente a expulsão, a pessoa pode voltar para a França no dia seguinte, mas com a interdição ela estará proibida de voltar ao país por um período de três a cinco anos. A interdição de território não se estende aos demais países da União Européia. Em alguns casos, o juiz não expede nem uma coisa nem outra. ''O preso é colocado na rua com um papel na mão, dando conta de que ele tem que deixar a França em cinco dias, sob risco de voltar para a cadeia de novo'', explica Martins. Nesse caso, os funcionários da embaixada reservam a passagem, mas é o próprio preso que deve custear as despesas, já que a Embaixada não presta esse serviço.
Em solo brasileiro, o ex-detento entra com a ficha limpa, ou seja, a condenação por tráfico na França não consta no passaporte. Mesmo se o preso entrar no Brasil acompanhado por um policial francês, ele tem o direito de dizer, sem ser contestado, que ficou detido no exterior por falta de documentos, e nunca por tráfico, o que o levaria a ter problemas também com a Polícia Federal.


