O perfil das brasileiras presas na França é praticamente o mesmo, e todas as histórias se parecem. Com idades entre 20 e 30 anos em média, pobres, algumas vivendo na mais completa miséria, desempregadas, mães solteiras; quando são detidas, algumas recebem uma denominação que vai constar dos arquivos policiais franceses: 'prostituta, domicílio desconhecido'.
Assim foi classificada a trabalhadora rural Emmanuela, 30 anos, de Uberaba (MG), detida no aeroporto de Roissy, no dia 11 de fevereiro de 2001, com 2,49 quilos de cocaína. Depois de ser interrogada, ela levou a polícia até a um hotel onde entregaria a droga para um homem, também preso em flagrante com cinco passaportes, cada um de uma nacionalidade diferente.
A polícia considerou complexo o caso de Emmanuela, e ela ficou detida 27 meses em Fleury Mérogis esperando pelo julgamento. No fim do ano passado, depois de ter passado mais de três anos encarcerada, uma juíza expediu o alvará de soltura. Por ser fim de semana e ter havido uma confusão na hora de liberar seus documentos, Emmanuela se viu livre mas sem saber para onde deveria ir. ''Ela foi jogada no meio da rua'', relembrou o padre francês Pierre Jourdanne, que acolheu a mineira por três semanas, até que a Justiça preparasse sua saída do país. No Brasil, ela voltou a trabalhar nas lavouras de cana-de-açúcar. ''Essa trouxe a cocaína por miséria mesmo, ela não tinha ambição nenhuma. Eu estive na casa dela. O piso é de terra batida'', contou.
Padre Pierre, que fala português fluentemente por ter trabalhado 12 anos numa paróquia em Santo André (SP), conhece como ninguém as misérias e os dramas de cada um dos brasileiros que passam por Fleury Mérogis. Nesses quatro anos em que ele os visita como voluntário, faz de tudo: recebe diariamente cartas, fotos e telefonemas das famílias no Brasil, transmite os recados, vai ao correio enviar o dinheiro que os presos mandam, assiste os julgamentos, é testemunha do desespero, da solidão, e também das alegrias que eles sentem quando voltam para o Brasil.
Integrante da ordem religiosa ''Fils de la Charité'' (Filhos da Caridade), padre Pierre explica que o trabalho que realiza feito por motivação espiritual, ainda que muitos presos sejam ateus e de outras religiões. ''São obras civis'', definiu. Acostumado às demonstrações de afeto dos brasileiros, e também a ser esquecido por alguns quando ganham a liberdade, o padre guarda em pastas os arquivos de cada um.
Casos como o da amazonense Kelly, 24 anos, de Tabatinga, presa em 2002 com 4 quilos de cocaína são particularmente dolorosos. Enquanto ela cumpria pena na França, ele esteve no Amazonas para levar notícias à família. ''Ela fazia faculdade e morava com uma tia, comerciante de motores de popa, numa casa com piscina e dois carros. Via-se logo que a família tinha recursos'', observou.
Das cadeias de Fleury Mérogis e Rennes, Kelly escrevia cartas insinuantes ao padre. Sem julgar o comportamento da moça, mas também sem esconder a decepção, ele acha que ela estava interessada em obter a nacionalidade francesa para residir na Europa. Depois que foi embora, ela ainda escreveu mais uma pedindo 1,5 mil euros emprestados. ''Nem tomei conhecimento e ela nunca mais deu sinal de vida'', criticou.
Na medida do possível, padre Pierre procura estender o acompanhamento aos ex-detentos que estão no Brasil. ''As dificuldades para superar os traumas e se reintegrar à sociedade são grandes''. Mas, alguns, como a paranaense Cidinha (nome fictício), 30 anos, de Irati, conseguem caminhar para frente, apesar da carga que carregam. Ex-freira (ela viveu 12 anos num convento em Minas Gerais), Cidinha foi presa em meados de 2003, com 1,6 quilo de cocaína a caminho da Suíça. Em Fleury Mérogis, onde esteve até o final do ano passado, ela cuidava de bebês de detentas.
Nas cartas que tem escrito regularmente ao padre, ela conta que esta trabalhando meio período e cuidando dos sobrinhos. Na última carta, de 25 de março, ela fala sobre os caminhos tortuosos da vida e diz que está se preparando para voltar ao convento em Minas Gerais. (M.B.)

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