Eles eram muitos. Com travesseiros nas mãos e vestidos com roupas que caracterizavam diferentes pessoas, representavam executivos, mendigos, soldados, escoteiros, senhoras, médicos, cowboys, modelos, cangaceiros. Caminhavam juntos pela rua mais tradicional de Curitiba, a Rua XV de Novembro. Estavam sérios, concentrados, andavam a passos lentos sem se comunicar com ninguém e paravam regularmente. Mesmo com a grande movimentação que toma conta da Rua XV em época eleitoral, eles chamavam a atenção, principalmente quando recitavam uma parte do poema ''Não sei quantas almas tenho'', do poeta português Fernando Pessoa.
Entre os que passavam pela rua, a curiosidade e a dúvida os faziam parar para observar. As reações eram muitas, alguns achavam que representavam zumbis ou trabalhadores, que faziam um protesto contra algum candidato a prefeito. Não entendiam porque tinham travesseiros nas mãos. ''É o dia da preguiça?'', perguntou uma das pedestres. Foi esse o comportamento das pessoas que assistiram à intervenção urbana realizada no último sábado pelo ator Alexandre Bonin junto com 37 estudantes de teatro do grupo Pé no Palco.
Quando chegaram à Boca Maldita, todos deitaram no chão. Primeiramente se acomodaram separados e depois de um tempo se uniram. Foi neste momento que o grupo conseguiu reunir muitos expectadores, que continuaram dando palpites sobre o que significava tudo aquilo. ''Acho que querem representar a igualdade. Mesmo com todas as diferenças, somos todos humanos e o sono é uma necessidade básica comum a todos'', arriscou uma interpretação a vendedora de quadros Cláudia Oliveira.
Instantes depois, todos os atores se levantaram e foram embora sem falar nada. O senhor Alfredo Griesbach, que até tentou, sem sucesso, se comunicar com uma das atrizes do grupo, afirma que não conseguiu entender qual o objetivo da atividade. ''Não entendi. Ninguém deu nem um oi. Não sei se é protesto, um grupo de teatro ou universitários. Eles ficaram sem falar, faltou darem uma brecha'', disse.
Mas enganou-se quem esperava uma resposta pronta para o que aquele grupo fazia. O ator e organizador da intervenção, Alexandre Bonin, explica que a interpretação é individual. ''Quero que cada um faça a sua leitura e aqui tivemos um milhão de diversas leituras'', afirmou. ''Amei o resultado. Quando um empresário deita no chão junto com um mendigo, isso humaniza. Também não esperava o choque com as manifestações políticas que tinham ali na Boca Maldita'', diz.
Ele conta que pensava em fazer esta intervenção há sete anos, escolheu a Rua XV de Novembro como palco por ela ser o ''umbigo de Curitiba'' e utilizou o poema de Fernando Pessoa porque fala sobre a alma do homem, do que passa por dentro do indivíduo. Bonin ainda complementa que a proposta era levar o teatro para outros cenários. ''Muita gente que assistiu nunca viu o teatro'', disse.
Para os atores, a maioria estudante de teatro, a participação foi um desafio. ''É uma linguagem diferente e temos muita concorrência com outros sons. A atenção não é só sua, mas causa estranhamento, choque'', conta a atriz Larissa Jorge. ''É uma lição de vida, mostra que mesmo com a diversidade, nenhuma pessoa é melhor que a outra'', diz a estudante de teatro Débora Mascarenhas.

Quem tem alma
não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu

Não sei quantas almas tenho,
de Fernando Pessoa


O que é uma intervenção urbana?
O ator Alexandre Bonin explica que intervenção urbana é uma manifestação artística fora da rotina. Ela não é esperada pelo público e imprime uma sequência de coisas que acontecem. ‘‘É como uma obra de arte. A pessoa, o público v꒒, diz.

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