Anderson Santos não nasceu cego. Ele conheceu o mundo colorido, às vezes cinzento, que vemos todos os dias. Perdeu praticamente toda a visão há sete anos, por conta da evolução de um problema de retina descolada, que não foi tratado. No olho direito ainda tem 5% da visão, mas que proporciona a ele apenas visões borradas e vultos.
Foram muitas cabeçadas (literalmente), topadas e objetos quebrados em casa, até que aprendesse a se orientar novamente. Hoje ele lava louça, vai à padaria comprar pão, vai de ônibus sozinho para as aulas no Instituto e à natação. ''Só não posso dirigir'', brinca.
Por um ano, ele andou com professores do Instituto pelas ruas de Londrina aprendendo a se locomover naquele mundo que não enxergava mais. Aprendeu a prestar atenção nos sons dos carros e ônibus a tal ponto que, quando anda com a mãe, é ele quem fala ''vamos'', para atravessar a rua. ''Tem vezes que eu já estou lá no meio da rua, e ela ainda não começou a atravessar''.
Curvas, subidas, descidas, quebra-molas e mesmo buracos servem de referência para andar de ônibus. ''Uma vez taparam o buraco que tinha aqui na minha rua. Naquele dia eu perdi o ponto que tinha que descer. Só fui perceber quando o ônibus fez outra curva'', lembra. Souza conta que nos dias de chuva, por causa do barulho, é muito difícil de locomover. ''Dia de chuva é horrível, você não sabe da onde está vindo o carro''.
Da piscina, quando pratica natação, ele ainda enxerga a faixa que existe no fundo. Mas se não fosse assim bastaria contar as braçadas. Apesar de se considerar ''bastante autônomo'', ainda busca mais. ''Só vou me sentir autônomo quando tiver a minha casa, o meu trabalho. Recebo o auxílio-doença do governo de um salário mínimo (R$ 260,00), mas não quero ficar só nisso. Quero mais''. (C.P.)

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