Porecatu – Não é preciso conversar com muitas delas para ver que as histórias das cortadoras de cana são parecidas. Mulheres, esposas, mães que por muitos anos enfrentaram o sol forte na cabeça na lavoura para ajudar no sustento da família. Praticamente sem estudo e qualificação profissional, ficavam ‘‘presas’’ à única oportunidade de trabalho. Mas, se o futuro parecia imutável e determinado, novas perspectivas e sonhos começam a aflorar trazendo a vontade de um novo recomeço.
Ainda que a presença da mecanização na região de Porecatu (Norte) por enquanto seja tímida, mulheres que sempre trabalharam na lavoura já começam a se preparar para o futuro. As mãos calejadas que antes carregavam pesados facões, agora sovam massa de pão, de pastel, salgados e preparam vários pratos de comida. A mudança faz parte de uma parceria entre a prefeitura e a Usina Central de Porecatu (UCP), na qual algumas das trabalhadoras foram realocadas na Escola Municipal Rural Hélio Pedro Vanzela.
Há cinco anos elas fazem a merenda das crianças, são responsáveis pela limpeza e pelos cuidados com o berçário. Desde julho deste ano, porém, uma nova oportunidade apareceu. Uma vez por semana elas se reúnem no período da noite e aprendem o que sempre tiveram vontade de cozinhar ou comer.
‘‘A princípio, o objetivo era que elas pudessem diversificar as refeições na própria casa. Entretanto, acabou se tornando um curso de capacitação em culinária, visando justamente oferecer uma outra qualificação’’, diz a diretora da escola, Márcia Francisquete Dias, referindo-se ao futuro incerto dessas mulheres na lavoura, principalmente em função da mecanização.
E se antes a maioria só sabia fazer o trivial arroz, feijão e carne, hoje dominam várias técnicas e receitas. ‘‘Aprendi a fazer lasanha, strogonoff, além de salgados como pastel, risólis e vários tipos de sobremesa’’, conta Rosa Cordeiro, de 35 anos, sendo 19 anos destinados à lavoura de cana. Apesar do pouco tempo de experiência na cozinha, o talento começa a aparecer, tanto que já pegou algumas encomendas de bolo. ‘‘O pessoal tem elogiado’’, revela, encabulada.
Talento que é percebido nas demais participantes, como Lurdes Pereira Oliveira, 39, que atuou na roça desde os 12 como cortadora de cana e sem ter trabalhado em nada diferente, vislumbra outras possibilidades.
‘‘Nunca tinha pensado em sair do corte de cana, tinha medo. Mas com o aprendizado sou capaz de coisas que não imaginava. Tenho mais confiança e acredito que não fico desempregada. Se me chamarem para trabalhar como auxiliar de cozinha, dou conta do recado’’, garante ela, que também faz o curso de manicure oferecido no mesmo local.
Por enquanto, a maioria só mostra os dotes adquiridos para a família e na rotina da escola. A renda extra, apesar de existir, ainda não é vista como alternativa. As cortadoras não deixam, entretanto, de mostrar sua vontade de arriscar ainda mais.
‘‘Penso em montar um negócio para festas. Fazer salgadinhos para vender. Com o conhecimento que tenho, sei que consigo. Quero dar um futuro melhor para meus filhos’’, confessa Rosângela Aprecida Sena, 48 anos e 36 como cortadora.

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