Cambará – A velha imagem dos cortadores de cana-de-açúcar trabalhando sob o sol escaldante está com os dias contados no Paraná. Uma reunião agendada para amanhã na Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sema), em Curitiba, com participação de representantes de vários órgãos, deve definir as novas regras para a despalha da cana com uso de fogo e para a destinação de resíduos e efluentes. À medida em que define datas limites para as queimadas (que facilitam o corte manual da cana), o Protocolo Agroambiental reforça a tendência de mecanização das lavouras.
O medo do desemprego começa a rondar quem trabalhou toda uma vida neste tipo de cultura. É o caso de Aparecida, Vanira, Silmara, Cleia e Domingos, personagens encontrados pela reportagem da FOLHA durante visita a Cambará (Norte Pioneiro), na última semana, preparando o plantio da próxima safra. Durante vários anos eles fizeram esse trabalho. A diferença, agora, é que as mãos que vão plantar talvez não sejam as mesmas que vão colher a próxima safra.
Não há números precisos das demissões que já tenham ocorrido pela mecanização, mas as estimativas não são animadoras. As máquinas já estão presentes em 30% das áreas destinadas a este tipo de cultivo no Estado. Há pouco mais de dois meses, a falência de uma usina deixou cerca de 800 trabalhadores sem emprego.
Apesar de o Sindicato Rural afirmar que grande parte já foi realocada em outras empresas, na cidade de Santo Antonio da Platina, na mesma região, o clima entre os empreiteiros e cortadores desempregados é de indignação e revolta.
Edson da Silva Melo, de 43 anos, casado, pai de três filhos, é um deles. ‘‘Estava no seguro-desemprego até mês passado. Agora, é esperar passar o período da entressafra para ver o que acontece, porque não me vejo fazendo outra coisa’’, afirma.
Emílio Marcolino da Silva, 38, também é pai de três filhos e está na mesma situação. Ele era o único da casa empregado e tem enfrentado dificuldades até mesmo com as despesas básicas. ‘‘Minha luz está na baixa renda. A conta de água minha mãe está pagando há três meses para não cortar. A comida as pessoas trazem’’, revela em tom de desespero.
Ele até se vê fazendo outro serviço, mas a vida toda foi cana que cortou. ‘‘A minha vida vai ficar difícil. Fiz cursos de Tecnologia da Informação e Comunicação, de Segurança no Trabalho, além de Manutenção Predial e Operador de Colhedora. Tudo para enriquecer o currículo, mas, ao mesmo tempo, as empresas exigem experiência.’’
Para conseguir algum dinheiro, João Marciano de Miranda, 60, tem vendido algodão doce. ‘‘Meu seguro-desemprego terminou esse mês. Mas e agora, o que eu e meus companheiros de labuta vamos fazer? Se eu não tiver onde trabalhar, como é que vou comer? O povo está revoltado, a ponto de atear fogo nas máquinas se elas realmente tirarem nosso sustento’’, ameaça. Ele argumenta que, mesmo com capacitação, pouca gente será reaproveitada.

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