Mudanças climáticas trazem oportunidade de crescimento
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terça-feira, 01 de agosto de 2017
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

O ano de 2017 é o quarto ano consecutivo em que há registro de pico de temperatura média no mundo, com aumento de 1,1 grau. No Brasil, em algumas regiões, como o Nordeste, a temperatura média já subiu entre três e cinco graus. As mudanças climáticas são um tema prioritário para a humanidade hoje, mas elas não devem ser encaradas apenas como um problema, mas também como oportunidades de novos negócios e maior crescimento econômico. A constatação é do coordenador do Programa Mudanças Climáticas da WWF-Brasil, André Costa Nahur, que participou como painelista do 9º EncontrosFolha, realizado na última sexta-feira (28) e que teve como tema "Como as mudanças climáticas desafiam o crescimento econômico".
Também participaram dos painéis o diretor da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica Regional Sul, Junior Ruiz Garcia; o ex-prefeito da cidade de Taquarituba (SP), Miderson Zanello Milleo; e o coordenador de mudanças climáticas da Sema-PR, Mauro Corbellini, que contou com o apoio do coordenador executivo de Proteção e Defesa Civil Estadual, Edemilson de Barros. Na abertura do EncontrosFolha o professor do Mestrado em Governança e Sustentabilidade do Isae/FGV, Cleverson Vitorio Andreoli, tratou sobre "Como as empresas podem responder às mudanças climáticas".
Nações europeias e asiáticas já se atentaram para as boas possibilidades de negócios advindas com as questões climáticas. Atualmente, a China investe bilhões de dólares em painéis solares e outras tecnologias que contribuem para a descarbonização da economia. Enquanto os chineses faturam alto com a exportação de painéis solares para o Brasil, que chegam aos nossos portos em quantidades cada vez maiores, o Brasil perde oportunidades econômicas ao não olhar para a frente na questão das mudanças climáticas e ver qual é o grande potencial de geração de emprego no País, alerta Nahur. "Ano passado e ano retrasado, o investimento em energias renováveis no mundo está muito maior do que qualquer outros de combustíveis fósseis", destacou o coordenador da WWF-Brasil. "Os dois últimos anos foram os dois primeiros anos em que a gente teve um deslocamento da linha do aumento do PIB e da linha do aumento de emissões de gases de efeito estufa, ou seja, a economia está transitando, isso já está acontecendo e é um processo irreversível."
RECURSOS
Se os custos de transição do emprego de energias mais poluentes para fontes renováveis de energia são altos, Nahur lembra que há formas de contornar a questão financeira já que há várias linhas de crédito interessantes para financiamento do setor agrícola, como o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) e o Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), só para citar duas delas. São recursos que estão disponíveis e podem reverter os impactos ambientais, além de fortalecer os processos produtivos.
Nahur cita também os green bonds, que são títulos de dívida emitidos para financiar ativos verdes ou de redução das mudanças climáticas. Neste ano, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) captou quase R$ 10 bilhões em green bonds para investir em energia renovável no Brasil, com o fortalecimento da geração de energia solar, eólica e biomassa. "O Brasil ainda não avançou nisso e a gente está trabalhando para tentar acelerar esse processo, mas existem várias iniciativas e o setor privado também está nisso."
A WWF-Brasil, em parceria com a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, realizou um estudo para tentar traçar qual será o grande impacto dos diferentes cenários climáticos nos principais setores econômicos no País e o resultado apontou para um enorme impacto na produção, principalmente na agricultura, na pecuária e no setor hidrelétrico. "A análise mostra que nos próximos anos, até 2050, o parque hidrelétrico que a gente tem no Brasil poderá ter uma queda de até 30% na produção pela redução da disponibilidade hídrica, isso no melhor dos cenários e considerando que os cenários climáticos vão ficar os mesmos de hoje, mas a gente sabe que isso tudo vai mudar." No Centro-Oeste brasileiro, aponta Nahur, já é uma realidade a perda de produtividade do solo.
DESCARBONIZAÇÃO
Outro estudo da WWF-Brasil feito em conjunto com a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) revelou que se o Brasil começar a implementar medidas para reduzir a emissão de carbono nos setores de energia, agropecuária e transporte, por exemplo, até 2030 poderia haver um incremento na economia nacional, com aumento do PIB (Produto Interno Bruto), redução da taxa de desemprego e melhora no poder de consumo de várias classes sociais. "Tem uma grande possibilidade de fazer esse shift e gerar um grande retorno do ponto de vista econômico no País. No cenário governamental, se você reduz a taxa de desemprego, você vai gerar um novo mercado no Brasil", ressalta Nahur.
Sobre as oportunidades de crescimento econômico surgidas no rastro das mudanças climáticas, o coordenador da ONG ambiental diz que cabe ao Brasil enxergar essas oportunidades e ver o grande mercado que se apresenta, com disponibilidade de recursos para financiamento. "Quanto mais tempo a gente demora para incluir isso, maior vai ser o custo para a sociedade. Precisamos começar a adotar essas medidas agora, aproveitar essas oportunidades para fazer do Brasil uma economia de referência de baixo carbono e também resiliente para a gente parar de sofrer esses impactos que as mudanças climáticas estão trazendo para todos nós."
Para o superintendente do Grupo FOLHA, José Nicolás Mejía, o impacto econômico das mudanças climáticas no mundo é uma realidade, ressaltando os custos que o Estado já está tendo na recuperação de danos provocados por eventos climáticos e que não estão previstos em orçamento. Ele alerta para a necessidade de se encontrar soluções que permitam reverter ou pelo menos estabilizar as mudanças climáticas. "Assim podemos sonhar com um futuro melhor."
Professor defende flexibilização das leis
O professor do Isae/FGV Cleverson Vitorio Andreoli afirma que é preciso reconhecer o papel da agricultura nos serviços ambientais e defende a flexibilização das leis. Segundo ele, a regulamentação que define as APPs (Área de Preservação Permanente) e as áreas de reserva legal faz com que o Brasil tenha "uma das legislações mais restritivas do mundo a esse respeito". Em países onde não há o conceito de APP adotado pelo Brasil, compara ele, as políticas de pagamentos pelos serviços ambientais são facilitadas.
"Na medida em que a gente começa a avaliar o que são os serviços ambientais oferecidos pelo meio rural e no momento que a gente possa valorar esses serviços ambientais que atendam à regulamentação, não fica difícil estabelecer quem são os beneficiários de forma a você poder fazer uma compensação para o agricultor em função do trabalho que ele já presta e utilizar esse recurso para induzir uma prática ainda mais sustentável", afirma.
"Para fornecer serviços ambientais para a sociedade, o produtor incorre num custo e o agricultor está em um mercado concorrencial. Estamos impondo um custo privado para um benefício público não queremos pagar a conta. Como beneficiários diretos dos serviços ecossistêmicos, devemos pagar como pagamos para ter o serviço de acesso à internet, telefonia, transporte", defende o professor da UFPR, Junior Ruiz Garcia.
Para reduzir os efeitos climáticos sem a necessidade de uma legislação extremamente restritiva, Andreoli defende que a regulamentação seja feita com base em informações científicas e que só seja implantada após análise do custo-benefício com base no princípio dos serviços ambientais. "Existe um mundo de exemplos de leis que são completamente absurdas no Brasil."
Ruiz concorda que a legislação deve ser flexível, mas alerta para os riscos das concessões. "Nós temos, em média, 10% de remanescentes da Mata Atlântica, já desmatamos 40% do Cerrado e 20% da Amazônia. Como não podemos falar em restrição?"(S.S.)

Educação, a maneira mais eficaz de prevenir desastres ambientais
Depois que o município de Taquarituba, no interior paulista, foi atingido por um tornado, em 22 de setembro de 2013, o ex-prefeito Miderson Zanello Milléo afirma estar convencido de que não há maneira mais eficaz de se prevenir os desastres ambientais do que o investimento na educação, que deve começar nos primeiros anos do ensino fundamental. "Nós, prefeitos, às vezes não temos uma visão especial ao meio ambiente. Geralmente os prefeitos medem o número de metros construídos porque a avaliação é de que quanto mais se constrói, melhor a gestão. Mas a gente tem que começar a pensar na cidade mais resiliente e pensar muito no processo ambiental", destacou.
Antes mesmo da passagem do tornado, disse o ex-prefeito, a educação ambiental já era uma preocupação do município, especialmente dentro das escolas. Desde 1997, Taquarituba "investe maciçamente" em ações ambientais. "Fomos premiados diversas vezes pela Secretaria do Meio Ambiente pelo (Programa) Município Verde, inclusive conseguindo classificações importantes com benefícios para o município. Dificilmente você muda o conceito de uma pessoa sem passar pelos bancos escolares."
Para o coordenador do Programa Mudanças Climáticas da WWF-Brasil, André Costa Nahur, no contexto atual, no qual as mudanças climáticas são urgentes, a questão da educação ambiental passa pela revisão comportamental. "Os princípios que a gente adota na nossa vida são fatores de educação ambiental, são fatores de mudança e isso é fundamental hoje em dia para a gente tentar acelerar esse processo."
"A educação ambiental é básica e se constrói a partir de bons exemplos. Se não educamos nossas crianças, não vamos conseguir manter um rio, que hoje é a veia do desenvolvimento. Temos que transmitir exemplos e isso é função do poder", acrescentou o coordenador de Mudanças Climáticas da Sema, Mauro Corbellini.
No meio acadêmico, ressaltou o professor da UFPR Junior Ruiz Garcia, também há a necessidade de mudar o modelo educacional, incorporando a questão ambiental. "A educação é o meio de transformação e nossos professores economistas estão ensinando para futuros economistas modelos econômicos que não incorporam a dimensão ambiental no século 21."(S.S.)


