Imagem ilustrativa da imagem Mudanças climáticas já mobilizam estratégias do agronegócio
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O produtor olha para céu, analisa tudo que sua lavoura tem passado, e sabe que os impactos climáticos são uma realidade safra após safra. Ondas de calor frequentes, volumes de chuva surpreendentes, veranicos, frio intenso em pequenos intervalos são situações que já fazem parte do agronegócio.
É claro que tudo isso não acontece de um dia para o outro – as mudanças climáticas são gradativas ao longo de décadas – mas não podem mais ser ignoradas. Especialistas e pesquisadores já perceberam uma maior preocupação da cadeia acerca do assunto, um desequilíbrio que está diretamente ligado ao aumento da concentração de GEE (gases de efeito estufa). Há 35 anos, eram 320 ppm (partes por milhão) de CO2 (gás carbônico) na atmosfera. Hoje são 410 ppm. O Acordo de Paris está aí tentando resolver este cenário difícil.
O agroclimatologista Eduardo Assad é pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária e trabalha há 25 anos com mudanças climáticas. Ele não titubeia em dizer que hoje temos uma agricultura mais vulnerável e que a discussão sobre o clima tem aumentado. "Não havia essa preocupação no passado e agora o clima virou insumo."
Em outros países, como nos EUA, o alerta sobre o assunto está mais intenso. Assad explica que isso ocorre devido aos níveis de produtividade serem mais altos e tais mudanças geram perdas mais significativas que no Brasil. "Temos um caminho grande para ganhar em termos de produtividade e por isso ainda não se dá muita bola para o assunto mudanças climáticas. O Brasil no milho, por exemplo, está em cinco toneladas por hectare e podemos atingir 10 toneladas por hectare, mesmo com tudo que temos vivido. Hoje nossas perdas por questões climáticas são na ordem de R$ 5 bilhões por ano, valor pequeno para um agronegócio que gera entre R$ 600 bilhões e R$ 700 bilhões. Isso não é nada, mas temos alertado que essa situação está crescendo."
Ele cita, por exemplo, que nos últimos 40 anos percebe-se um aumento absurdo de dias com temperaturas acima de 34ºC, o que é chamado de ondas de calor. "Isso tem consequências. No café, por exemplo, a temperatura elevada na época da floração gera o aborto de flores, na laranja e no feijão a mesma coisa. As porcas abortam, as vacas leiteiras diminuem a produção e os pintos de um dia morrem."

SOLUÇÕES
Segundo Assad, a pesquisa nacional tem se esforçado para lidar com os desafios climáticos. Plantas tolerantes a estresses climáticos e a integração lavoura pecuária serão muito importantes. "No futuro, o Brasil não conseguirá fugir da integração lavoura pecuária. O pasto retém água no solo e a parte hídrica é compensada. Por outro lado, quando se põe soja, milho, em cima do pasto, usa-se a fazenda 80% a 90% do tempo. O solo não fica exposto emitindo CO2 e você está sequestrando carbono. São boas práticas agrícolas que dominamos há 30 anos e agora está começando a crescer, com 11 milhões de hectares nessa linha." Tudo isso, pensando num aumento de temperatura de no máximo 2ºC. Acima disso, a pesquisa ainda não consegue prever.

SEM SURPRESAS
Esse novo cenário em relação às mudanças climáticas não podem mais surpreender o produtor. Essa é a opinião do coordenador da área de grãos do Instituto Emater, Nelson Harger. Segundo ele, projetar como o clima irá se comportar por meio de diversas ferramentas e estratégias disponíveis atualmente se tornou essencial para quem busca se manter competitivo na lavoura.
Harger explica que o agricultor não está muito acostumado a utilizar prognósticos climáticos de médio prazo. "Ele usa mais prognósticos de momento, de no máximo cinco dias. O planejamento da safra não está apenas na aquisição de insumos ou no que se vai plantar, também está associado às questões do clima, que ele precisa colocar no seu planejamento à médio prazo."
Serviços e ferramentas para esse trabalho já existem, sejam pagos ou gratuitos. Ele cita por exemplo o bom trabalho do Canal Rural, via TV, ou pela internet como nos sites Weather Brasil ou Windy, com avaliações de pressão, temperatura, previsão de nuvens, precipitações entre outros dados. "Para um cenário de 10 a 15 dias, hoje a assertividade é muito alta para operar e planejar previsões agrícolas."

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