Mudança de comportamento
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de agosto de 2008
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
Eles preferem não se identificar. Mas, sob pseudônimos, contam como lidam com a disfunção erétil e o medicamento que revolucionou a sexualidade nos últimos dez anos: o Viagra e seus similares (Levitra, Cialis, Vivanza, etc.).
De tanto ouvir os amigos falarem sobre as vantagems do produto, Maurício, 51 anos, resolveu experimentá-lo no início de 2007. Separado, porém envolvido com uma amizade colorida, comprou uma cartela e tomou apenas metade de um comprimido. Foi o suficiente para se surpreender.
Ele conta que a parceira, cinco anos mais nova e insaciável, apóia o uso do medicamento. E não poderia ser diferente. Há pouco tempo, os dois tiveram nada menos do que seis relações em uma única noite. Com o remédio, você tem a segurança de saber que vai arrebentar a boca do balão, diverte-se.
Segurança é a palavra-chave para Ricardo, 36, adepto do Levitra. Assumidamente ansioso e inibido, ele normalmente falha no primeiro encontro. Enquanto não pego intimidade com alguém, vou usando o remédio. Quando me sinto mais seguro, deixo de tomar, diz.
Atualmente sem namorada, Ricardo costuma se relacionar com parceiras que encontra na noite. Para não ser pego desprevinido, anda sempre com uma cartela de Levitra na carteira. Saber que o remédio está ali, à disposição, é quase um auxílio psicológico, confessa.
Como Maurício e Ricardo, 38% dos curitibanos também perceberam que a qualidade de sua ereção piorou nos últimos anos. É o que indica, entre outros dados, a pesquisa Mosaico Brasil, realizada pelo laboratório Pfizer para marcar a primeira década de comercialização do Viagra.
Com o objetivo de mapear o comportamento afetivo-sexual do brasileiro, o estudo pretende ouvir, até o fim do ano, cerca de 8 mil pessoas em 10 capitais. Quem conduz os trabalhos é a professora Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.
A etapa curitibana da pesquisa ocorreu há um mês, em praças, parques e shoppings da cidade. Foram entrevistados homens e mulheres de 18 a 71 anos, entre casados e solteiros, hetero e homossexuais. Esperávamos que o curitibano fosse mais conservador. Mas a disponibilidade e facilidade das pessoas para lidar com o tema da sexualidade foi uma revelação para nós, diz Carmita.
Sobre o problema específico da disfunção erétil, Carmita chama a atenção para um dado importante: as mulheres, de forma geral, ainda não participam da decisão de usar Viagra, Levitra, Cialis e companhia. Apesar de toda a intimidade dos casais, essa ainda é uma questão de foro pessoal. Como se a falha de ereção afetasse somente o homem, analisa.
A professora também toca em outro assunto controverso, o consumo desses remédios por jovens. Segundo Carmita, há três categorias nesse sentido: usuários de drogas em geral, rapazes com dificuldade de relacionamento e indivíduos com uma necessidade exagerada de sexo.
Para ela, deve-se fiscalizar a venda indiscriminada nas farmácias. Mas identificar e orientar esses pacientes é ainda mais importante. Não adianta coibir o uso, isso é repressão. Temos de tratar essas pessoas e corrigir o problema o quanto antes.
Polêmica à parte, o fato é que o Viagra e seus congêneres mudaram para sempre o comportamento sexual. O advento do Viagra fez com que os assuntos ligados
à sexualidade fossem divulgados de forma mais aberta. Depois dele, a associação entre sexo e saúde passou a ser mais conhecida e estudada, afirma Carmita.
Mas isso não importa nem um pouco para os homens que festejam, isso sim, a melhora no desempenho sexual. Se eu soubesse que era tudo isso, teria tomado desde que foi lançado, empolga-se Maurício.
Sua parceira insaciável também agradece.


