A bandeira vermelha do MST está hasteada no coração de Maria Zenilda Pingas, coordenadora pedagógica da escola de Araupel, em Quedas do Iguaçu (165 quilômetros a leste de Cascavel), o maior assentamento da América Latina. Inspirada pela ideologia que sacraliza a terra, a jovem de 25 anos não separa o ''corpo do movimento'', representado pela luta dos camponeses, do ''espírito sem-terra'', configurando assim uma identidade.
''Nós (os sem-terra) estamos modificando a estrutura fundiária. À medida que ocupamos uma fazenda, mexemos nos alicerces da sociedade. Minha tarefa é ir nas favelas e fazendas onde estão trabalhadores, convidando para que entrem na luta. Não é uma forma de tomar o poder, como muitos afirmam. Acreditamos em outra forma de organização da sociedade brasileira. Se chamam isso de socialismo não importa, o importante é que não queremos o capitalismo, cuja marca é gerar pobres'', afirma Maria Pingas que, diariamente, anda 6 quilômetros de sua casa até a escola, onde estudam 383 alunos, também denominados ''sem-terrinha''.
Maria Pingas começou a dar aulas no assentamento Nova Aliança, em Palmital (146 quilômetros a oeste de Guarapuava), onde o pai já era assentado.''Somos seis filhos e eu, como filha mais velha, precisava sair para também acampar'', comenta, revelando um pouco da lógica sem-terra, incluída na cartilha dos sem-terrinha, que absorvem conhecimento produzido a partir da realidade.
Por ter como base a ideologia do MST, as escolas dos sem-terra já foram comparadas às madrassas, escolas islâmicas que pregam o extremismo. Maria Pingas afirma ser impossível uma separação. ''Os livros didáticos são mostrados aos alunos para que vejam como são feitos a partir da classe dominante. Trabalhamos com conceitos de um Brasil que não foi descoberto, mas invadido. Um grande desafio que temos - digo isso enquanto integrante do setor de educação - é sistematizar nosso conhecimento'', afirma a professora, que estuda Pedagogia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
A coordenadora explica que o currículo escolar nos acampamentos abrange motivação para que os sem-terrinha queiram viver no campo e não na cidade.
''Desde 1999 estamos na fazenda. É muito tempo na luta, mas temos muitas crianças que não se sentem camponesas e outras, vindas do Paraguai e de favelas de Foz do Iguaçu, que precisam resgatar a auto-estima, para que valorizem a luta dos pais'', explica.
A seguir, um pouco mais sobre a ideologia do MST, de acordo com a professora Maria Pingas:

VISÃO DE MUNDO (quadro)

Educação
''Nossos professores não passam por concurso, são indicados pela própria comunidade. Os estudantes têm uma visão sobre o mundo, aprendendo a pensar novas estratégias do movimento. Precisamos ter engenheiros, professores, médicos, entre outras profissões. É importante para a luta que saiam do nosso meio. O Incra chegou a contratar um veterinário para nós, porém, não deu certo porque não tinha vínculo com o movimento. Três técnicos que prestavam assistência também foram embora porque não tinham ligação com a gente''.

Tecnologia
''Consideramos a tecnologia importante para alavancar a luta, olhando para o campo de uma maneira diferente do agronegócio. O carro, a energia elétrica, a informática são importantes. Nós, do movimento, reconhecemos isso e acreditamos que podem unificar a luta dos povos do mundo. A Via Campesina utiliza a Internet para articular as lutas, fazendo com que consigamos nos comunicar com mais rapidez. É uma redemocratização do que foi apropriado pelos capitalistas''.

Futuro
''Enquanto assentada - ex-acampada - o primeiro objetivo é a terra. Depois, tem de ser a luta pela reforma agrária de verdade, com educação e saúde. O sonho de todos é ter uma vida digna, com boas estradas, transporte, casa, água, luz, saneamento, universidade, tudo isso. Essas conquistas só são possíveis com a permanência na luta. O que nos diferencia (MST) é que estamos modificando a estrutura fundiária do Brasil''.

Alcoolismo e drogas
''O alcoolismo é bastante presente e as drogas - maconha, cocaína e crack - tentaram se fazer presentes. Me lembro bem quando éramos acampados. Lá não se olha se a pessoa é adventista ou vende drogas. Quando percebemos que veio gente para distribuir drogas, chamamos para conversar e mostrar que isso não leva a nada, é o caminho da destruição da vida. Tentamos conscientizar, mas se a pessoa permanece no erro, é expulsa. Já tivemos de expulsar porque entendemos que pode contaminar o resto das pessoas e passar uma imagem errada para a sociedade.''
(F.L.)

mockup